Em um cenário econômico que parece não dar trégua, o Brasil amarga um recorde alarmante: cerca de 80% das famílias estão endividadas, segundo dados recentes da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada na última semana, revela que, em outubro, o percentual de lares com contas a pagar – como cartão de crédito, cheque especial e empréstimos – saltou para 78,2%, uma alta de 0,6 ponto percentual em relação a setembro.
Especialistas alertam que, se a tendência persistir, o fim do ano pode fechar com mais de 80% das famílias no vermelho, agravando uma crise que já consome a renda de milhões de brasileiros.
A pesquisa da CNC pinta um quadro preocupante. O cartão de crédito segue como o principal vilão, respondendo por 84,5% das dívidas declaradas, seguido por carnês de loja e financiamentos pessoais. “Os juros altos e a inflação persistente estão sufocando o orçamento familiar. Muitos recorrem ao crédito para tapar buracos, mas acabam cavando um poço ainda mais fundo”, explica Felipe Tavares, economista-chefe da CNC.
De acordo com os números, 30,2% das famílias já estão inadimplentes – o maior patamar desde setembro de 2023 –, e 12,7% declaram não ter condições de quitar o que devem. Isso representa um aumento de 0,2 ponto percentual em relação a junho, sinalizando que o limite da capacidade financeira está sendo ultrapassado.
Por Que o Endividamento Explodiu?A raiz do problema é multifacetada.
A taxa Selic, mantida em patamares elevados pelo Banco Central para combater a inflação que ronda os 5% ao ano, encarece o crédito e comprime o poder de compra. “Com a economia estagnada e o desemprego rondando os 8%, as famílias recorrem a empréstimos para cobrir despesas básicas, como alimentação e moradia”, aponta José Roberto Tadros, presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac. Dados da Serasa Experian corroboram: em novembro, o número de inadimplentes chegou a 73,79 milhões de pessoas, um crescimento de 0,94% em relação a outubro, com mais de R$ 4,63 bilhões renegociados em mutirões de dívida.
Regiões mais vulneráveis sofrem mais. No Norte do país, estados como Amazonas, Roraima e Amapá lideram o ranking de endividamento, com mais de 80% das famílias afetadas. Já nas classes de baixa renda – até três salários mínimos –, o percentual de dívidas em atraso ultrapassa 36,6%. Um estudo do Ibevar e da FIA projeta que a inadimplência em recursos livres deve atingir 5,37% em janeiro de 2026, impulsionada pela baixa renda média, que ainda patina abaixo dos R$ 2.500 mensais para a maioria dos lares.
Histórias de Vida: O Rosto Humano da DívidaPara ilustrar o drama, ouça Maria Silva, 42 anos, moradora de São Paulo e mãe de dois filhos. “Eu uso o cartão para comprar o mercado, mas no fim do mês, os juros comem metade do salário. Saí da inadimplência no ano passado, mas voltei em menos de seis meses”, conta ela, ecoando um padrão revelado pela CNC: 8 em cada 10 brasileiros que limpam o nome voltam a se endividar em menos de um ano.
Em outra ponta, João Mendes, aposentado de 65 anos no Rio de Janeiro, declara: “Meu consignado era pra ajudar, mas com a inflação nas contas de luz e remédios, virou uma bola de neve”. Casos como esses não são isolados: 20,8% das famílias destinam mais da metade da renda a dívidas, o maior índice desde maio de 2024.O Que o Governo e o Mercado Podem Fazer?Frente à escalada, especialistas cobram ações urgentes.
A CNC recomenda maior educação financeira nas escolas e campanhas nacionais de renegociação, como o mutirão Serasa Limpa Nome, que já salvou bilhões em acordos. O governo, por sua vez, é pressionado a rever programas de crédito subsidiado, evitando que se tornem armadilhas para os mais pobres. “Políticas de renda mínima e controle de juros são essenciais para quebrar esse ciclo vicioso”, defende Tavares.
Projeções da entidade indicam que, sem intervenções, o endividamento pode subir 1,1 ponto percentual até o fim de 2025, com inadimplência crescendo 1,4%.
Enquanto isso, dicas práticas para escapar do buraco: priorize o pagamento de dívidas com juros mais altos, corte gastos supérfluos e busque orientação gratuita em Procons ou apps de finanças. O alerta é claro: sem mudanças, 80% dos brasileiros não é só um número – é o retrato de uma nação à beira do colapso financeiro.Esta reportagem baseia-se em dados da CNC, Serasa e Ibevar. Para mais informações, acesse o site da Peic.















