A poucas horas do julgamento de Bolsonaro, surge estranha nova ordem dentro do Exército

Brasília, 01 de setembro de 2025A menos de 24 horas do início do julgamento histórico do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no Supremo Tribunal Federal (STF), o Exército Brasileiro emitiu uma ordem interna considerada “estranha” e controversa por setores conservadores: a proibição total de aglomerações, manifestações ou protestos nas proximidades de unidades militares durante o período do processo judicial e o feriado de 7 de setembro.
A medida, que impõe “tolerância zero” a qualquer tipo de concentração perto de quartéis, foi comunicada aos comandos de área na noite de domingo (31) e rapidamente repercutiu nas redes sociais, gerando acusações de que as Forças Armadas estariam se alinhando ao governo Lula para suprimir vozes dissidentes.
O julgamento, que começa nesta terça-feira (2) na Primeira Turma da Corte, pode resultar em penas superiores a 40 anos de prisão para Bolsonaro e outros sete réus acusados de trama golpista, e o timing da ordem militar alimenta especulações sobre uma tentativa de evitar repetições dos atos de 8 de janeiro de 2023.De acordo com fontes internas do Exército, a diretriz visa “preservar a apoliticidade das instituições” e prevenir qualquer associação entre as Forças Armadas e manifestações políticas, especialmente em um momento sensível como o atual. A ordem abrange não só o julgamento – com sessões marcadas para 2, 3, 9, 10 e 12 de setembro –, mas também os atos patrióticos programados para o Dia da Independência, que coincidem com a análise do caso.
Em Brasília, o Comando Militar do Planalto (CMP) e a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF) já realizam reuniões conjuntas para coordenar o monitoramento, com expectativa de que protestos se concentrem em áreas como a Torre de TV, longe dos quartéis e da Praça dos Três Poderes. Oficiais consultados reservadamente afirmam que não há indícios de mobilizações próximas às instalações militares, mas a rigidez da medida é vista como uma resposta preventiva ao histórico de polarização envolvendo Bolsonaro, ex-capitão do Exército.Contexto do julgamento e a sensibilidade militarO processo no STF, relatado pelo ministro Alexandre de Moraes, julga o “núcleo crucial” da suposta organização criminosa que, segundo a Procuradoria-Geral da República (PGR), tentou subverter o resultado das eleições de 2022, vencidas por Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Além de Bolsonaro, os réus incluem três generais de quatro estrelas – Augusto Heleno (ex-ministro do GSI), Paulo Sérgio Nogueira (ex-ministro da Defesa) e Walter Braga Netto (ex-ministro da Casa Civil e candidato a vice) –, o almirante Almir Garnier Santos (ex-comandante da Marinha), o tenente-coronel Mauro Cid (ex-ajudante de ordens, delator do caso), Alexandre Ramagem (ex-diretor da Abin) e Anderson Torres (ex-ministro da Justiça).
A PGR acusa o grupo de crimes como organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado, com penas que podem ultrapassar 43 anos.Para as Forças Armadas, o caso é inédito e delicado: pela primeira vez desde a redemocratização, generais de alta patente enfrentam julgamento por tentativa de golpe, o que historiadores comparam a um rompimento com a tradição de anistias e complacência militar em episódios semelhantes. Em caso de condenação, os réus militares têm direito a prisão especial em dependências das Forças Armadas, conforme o Código de Processo Penal (CPP), mas uma pena superior a dois anos poderia levar à perda de patente e honrarias no Superior Tribunal Militar (STM), uma punição reputacional vista como “morte simbólica” na caserna.
O Alto Comando do Exército, que rejeitou abertamente planos golpistas durante as investigações da Polícia Federal (PF), busca se distanciar de ações individuais de ex-oficiais, reforçando a neutralidade institucional.
A ordem surge em meio a tensões diplomáticas agravadas pelas sanções americanas contra o Brasil, impostas pelo governo Trump em defesa de Bolsonaro. Tarifas de 50% sobre exportações brasileiras e restrições a Moraes e familiares já impactam a economia, e apoiadores do ex-presidente temem que protestos no 7 de setembro – tema “Brasil Soberano” pelo governo Lula – possam ser reprimidos.
O CMP assumirá a coordenação do desfile cívico-militar em Brasília, mobilizando cerca de 2 mil soldados, veículos e as polícias das Forças Armadas, ao lado de PM, PF e Polícia Civil, para evitar que o evento se torne palco de polarização.Reações nas redes e críticas à “tolerância zero”Nas redes sociais, a ordem explodiu em controvérsias, com bolsonaristas chamando-a de “estranha” e “traiçoeira”. Perfis conservadores, como o portal Jornal da Cidade Online, publicaram matérias acusando o Exército de “se curvar ao STF” e proibir o povo de se manifestar perto de quartéis, o que seria uma “agressão desnecessária”. Usuários no X (antigo Twitter) expressaram decepção: “Vocês já perderam todo crédito conosco”, tuitou um perfil, enquanto outro ironizou: “O Exército de antigamente não faria isso”.
A hashtag #ExercitoTraidor ganhou tração, com posts sugerindo que a medida é uma “revolução popular” em potencial, embora oficiais neguem qualquer intenção repressiva além da preservação da ordem.Do lado governista, a ordem é elogiada como medida de “responsabilidade institucional”. O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, não comentou diretamente, mas fontes do Planalto destacam que o foco é na segurança pública, com uso de drones, cães farejadores e restrições de circulação no STF.
A PF investiga se articulações de Eduardo Bolsonaro nos EUA, incluindo lobby por mais sanções, configuram obstrução de justiça, o que poderia agravar o clima. Analistas como Monica Gugliano, do Estadão, veem a diretriz como tentativa de evitar que o desfile do 7 de Setembro se transforme em “ferramenta da polarização”, especialmente com manifestações pró e contra Bolsonaro sendo preparadas.Perspectivas e o que esperarO rito do julgamento começa às 9h desta terça, com abertura pelo presidente da Primeira Turma, Cristiano Zanin, seguido da leitura do relatório por Moraes. A PGR terá até duas horas para acusação, e as defesas, uma hora cada.
Os votos seguem a ordem: Moraes, Flávio Dino, Luiz Fux, Cármen Lúcia e Zanin, com decisão por maioria simples. Um pedido de vista poderia adiar o veredicto por até 90 dias, mas é considerado improvável.
A defesa de Bolsonaro alega “lawfare” e ausência de provas concretas, pedindo absolvição, enquanto a PGR, via Paulo Gonet, descreve o ex-presidente como “principal articulador”.Enquanto o Brasil monitora o STF de perto, a ordem do Exército reforça o ar de tensão. Historiadores alertam que o caso pode “encerrar um ciclo de quebra da legalidade”, como disse o ministro Luís Roberto Barroso, mas para bolsonaristas, é sinal de um “sistema opressivo”.
Atualizações sobre o julgamento e reações serão acompanhadas em tempo real. Fique atento ao portal do STF e canais oficiais para mais detalhes.

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