Brasília, 29 de agosto de 2025
Em um cenário de crescente tensão nas contas externas do país, o Banco Central do Brasil (BCB) divulgou dados alarmantes que acendem um sinal de alerta para a economia nacional. A dívida externa bruta do Brasil alcançou US$ 362,147 bilhões em julho de 2025, equivalente a aproximadamente R$ 1,9 trilhão na cotação atual do dólar (em torno de R$ 5,25 por dólar).
Além disso, o país registrou uma fuga de capitais de US$ 1,8 bilhão apenas em agosto, até o dia 22, revelando uma saída líquida de recursos estrangeiros que pode agravar a volatilidade cambial e pressionar o real. Os números, divulgados no relatório de balanço de pagamentos do BCB nesta terça-feira (26), destacam os desafios fiscais e externos enfrentados pelo governo Lula em meio a um contexto global de juros altos nos Estados Unidos e incertezas comerciais.
Um Déficit que Reflete Pressões Globais e InternasA dívida externa, que inclui obrigações do setor público e privado com credores estrangeiros, apresentou uma leve redução em relação a junho (US$ 363,133 bilhões), mas ainda representa um patamar elevado, cerca de 25% do PIB brasileiro estimado para 2025.
Desse total, US$ 269,006 bilhões são de longo prazo – como empréstimos bancários e títulos soberanos – e US$ 93,141 bilhões de curto prazo, ligados principalmente a importações e operações comerciais. O setor privado responde por cerca de 70% desse endividamento, com empresas como Petrobras e Vale à frente, enquanto o governo federal detém os 30% restantes.
O presidente do BCB, em declaração oficial durante a divulgação, enfatizou que, embora o nível seja gerenciável graças às reservas internacionais de US$ 350 bilhões, a trajetória ascendente exige vigilância. “Estamos em um momento de transição global, com o Federal Reserve mantendo juros elevados acima de 5%, o que atrai capitais para os EUA e pressiona emergentes como o Brasil”, afirmou.
Internamente, o déficit fiscal persistente – com rombo primário de R$ 59 bilhões em julho – e as tensões comerciais, como a recente autorização para aplicação da Lei da Reciprocidade contra tarifas americanas de 50%, contribuem para o cenário de cautela.
Especialistas consultados pela reportagem apontam que a desvalorização do real, que subiu de R$ 5,40 para R$ 5,65 em agosto, amplifica o valor em reais da dívida, elevando o custo de rolagem para cerca de US$ 50 bilhões anuais em juros e amortizações. “Isso não é uma crise iminente, mas um alerta para reformas fiscais urgentes”, avalia Monica de Bolle, economista e professora da Universidade Brown, em entrevista exclusiva.
Ela alerta que, sem controle de gastos obrigatórios como previdência e benefícios assistenciais, o Brasil pode enfrentar um rebaixamento de rating por agências como Moody’s, encarecendo ainda mais o acesso a crédito internacional.Fuga de Capitais: US$ 1,8 Bilhão em Saída Líquida e Seus Efeitos ImediatosO ponto mais crítico do relatório é a fuga de capitais registrada em agosto: uma saída líquida de US$ 1,833 bilhão até o dia 22, com o canal financeiro respondendo por US$ 1,814 bilhão negativos e o comercial por US$ 19 milhões. Esse movimento inverte a entrada de US$ 4,5 bilhões vista em julho e reflete a repatriação de investimentos estrangeiros em busca de retornos mais seguros nos EUA.
No acumulado do ano, o fluxo cambial já mostra pressões, com déficit em transações correntes de US$ 2,1 bilhões em julho.A fuga é impulsionada por fatores como a aversão ao risco global – agravada pela possibilidade de recessão nos EUA sob a agenda protecionista de Donald Trump – e questões domésticas, incluindo o déficit fiscal e a dependência de commodities voláteis. Analistas do Itaú Unibanco projetam que, se a tendência persistir, a saída pode alcançar US$ 5 bilhões até o fim do ano, pressionando o dólar para R$ 5,80 em setembro. “Isso eleva a inflação importada, com combustíveis e eletrônicos mais caros, e força o BCB a intervir com swaps cambiais”, explica Pedro Malan, ex-ministro da Fazenda, em análise para o jornal.No mercado financeiro, a reação foi imediata: o Ibovespa caiu 1,2% na quarta-feira (27), enquanto o dólar futuro para setembro subiu 0,8%. Setores como indústria e agronegócio, dependentes de financiamento externo, já sentem o impacto, com custos de hedge (proteção cambial) em alta. “Empresas endividadas em dólar enfrentam um aperto de caixa que pode levar a defaults seletivos se não houver diversificação de mercados”, adverte um relatório da XP Investimentos.
Perspectivas e Medidas em Debate: Um Caminho para a Estabilidade?Diante do alerta, o governo e o BCB sinalizam ações preventivas. O Comitê de Política Monetária (Copom) pode elevar a Selic de 10,5% para 11% na próxima reunião, em setembro, para atrair capital e conter a inflação projetada em 4,5% anual.
Além disso, emissões de títulos em reais e diplomacia para mitigar tarifas americanas estão em pauta. O secretário do Tesouro, Rogério Ceron, destacou em nota que “o pagamento de precatórios e despesas extraordinárias são fatores atípicos, mas o arcabouço fiscal de 2025 visa déficit zero, com tolerância de 0,25% do PIB”.Projeções do mercado, via Boletim Focus, estimam a dívida externa em US$ 345 bilhões até dezembro, com entrada de investimentos diretos (IED) de US$ 60 bilhões no ano – abaixo da meta de US$ 80 bilhões. No entanto, cenários otimistas preveem estabilização se houver cortes de juros globais e superávit comercial (projetado em US$ 60 bilhões para 2025).
Pessimistas, como os do JPMorgan, alertam para recessão leve se a fuga escalar para US$ 10 bilhões.Para o cidadão comum, os efeitos são palpáveis: alta no preço de importados pode impulsionar a inflação para 6%, erodindo o poder de compra. Economistas como Armínio Fraga, ex-presidente do BCB, defendem “uma agenda de reformas para restaurar confiança, incluindo privatizações parciais e corte em gastos obrigatórios”. Enquanto isso, o debate no Congresso sobre o Orçamento de 2026 ganha urgência, com opositores criticando o “descontrole fiscal” e governistas culpando fatores externos.Esse quadro reforça a necessidade de uma estratégia integrada para blindar a economia brasileira contra choques globais. O BCB monitora de perto, mas o sucesso dependerá de ações coordenadas entre governo, Congresso e setor privado.















