Brasília, 30 de setembro de 2025
Um dado alarmante veio à tona nesta semana: cerca de 94 milhões de brasileiros, quase 44% da população em idade ativa, estão inscritos no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), principal porta de entrada para benefícios como Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada (BPC) e outros auxílios federais. O número, atualizado em agosto pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), reflete a persistência da pobreza e a dependência de transferências de renda em um país ainda marcado por desigualdades estruturais.
O Peso dos Programas Sociais
O CadÚnico abrange mais de 40 benefícios, incluindo Bolsa Família, Tarifa Social de Energia Elétrica, Auxílio Gás e Minha Casa Minha Vida. Embora nem todos os inscritos recebam benefícios simultaneamente, o volume de 94 milhões de pessoas – equivalente à população de países como Alemanha ou Turquia – evidencia a escala do desafio social brasileiro. O Bolsa Família, carro-chefe dos programas, atende 19,07 milhões de famílias, totalizando 49,75 milhões de pessoas, com um investimento mensal de R$ 12,96 bilhões e um valor médio de R$ 682 por família em setembro de 2025. Já o BPC beneficia cerca de 5,8 milhões de idosos e pessoas com deficiência, com um crescimento de 72,7% no valor médio do benefício desde 2019, alcançando R$ 836 em 2024.
Outros programas, como Garantia-Safra e Pé-de-Meia, complementam a rede de proteção, que consome cerca de R$ 500 bilhões anuais do orçamento federal. “Esses números mostram que os programas sociais são uma tábua de salvação para milhões, mas também um sinal de que a economia não está gerando oportunidades suficientes”, avalia Mariana Costa, economista da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Avanços e Limites
O governo Lula tem destacado avanços no combate à pobreza extrema, com uma redução de 25% no número de famílias em situação de miséria no CadÚnico entre 2023 e 2025 (de 26,1 milhões para 19,56 milhões). A saída do Brasil do Mapa da Fome da ONU em 2024, após uma década, foi celebrada como um marco, impulsionada por ajustes no Bolsa Família e por um “pente-fino” que eliminou fraudes, reduzindo o número de famílias beneficiárias de 21,1 milhões para 19,6 milhões no último biênio.
No entanto, a alta dependência levanta questionamentos sobre sustentabilidade. Dados do MDS mostram que 77% das 1,49 milhão de vagas formais criadas entre janeiro e julho de 2025 foram ocupadas por inscritos no CadÚnico, indicando que o mercado de trabalho ainda não garante renda suficiente para a emancipação dessas famílias. “É um ciclo: a pessoa consegue um emprego, mas o salário é baixo, e ela continua precisando do Bolsa Família para fechar as contas”, explica Costa.
Reações e Perspectivas
A oposição tem usado o número para criticar o governo, acusando-o de fomentar o “assistencialismo crônico”. “Com 94 milhões dependentes, estamos criando uma nação refém de benefícios, sem perspectiva de crescimento real”, disse o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em postagem no X. Já o ministro do MDS, Wellington Dias, defende que os programas são “um investimento na dignidade e na retomada econômica”. Ele cita a integração de dados com o mercado de trabalho e a previdência, que atualizou a renda de 33 milhões de cadastros, como prova de gestão responsável.
Organizações da sociedade civil, como o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), cobram mais. “Não basta dar o peixe, é preciso ensinar a pescar. Queremos programas de capacitação e acesso a crédito para pequenos empreendedores”, afirma Joana Almeida, liderança do MTST em São Paulo.
O Caminho Adiante
Analistas alertam que, sem reformas estruturais, o número de dependentes pode ultrapassar 100 milhões até 2026, especialmente com as pressões de um ano eleitoral. A criação de empregos formais, investimentos em educação profissionalizante e políticas regionais para o Norte e Nordeste – onde a pobreza é mais concentrada – são vistos como essenciais para reverter o quadro. “O Brasil precisa de um choque de inclusão produtiva, ou vamos eternizar essa dependência”, alerta Costa.Enquanto o debate segue, os 94 milhões de inscritos no CadÚnico representam não apenas um desafio fiscal, mas um espelho das desigualdades históricas do país. Para mais informações, os dados completos estão disponíveis no Portal da Transparência e no site do MDS.
Grok/X















