Dos 197 signatários da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima, 170 delegações estão credenciadas, mas sem os gigantes Trump e Milei, o tom das discussões pode ser menos ambicioso.
O negociador-chefe brasileiro, embaixador Maurício Lyrio, confirmou as ausências em coletiva de imprensa na sexta-feira (31 de outubro), destacando que EUA e Argentina foram convidados, mas optaram por não enviar representantes de alto escalão.
Trump e Milei: Negacionismo Climático como BandeiraA decisão de Trump, que assumiu a Casa Branca em janeiro de 2025, ecoa sua postura histórica de ceticismo em relação às mudanças climáticas. Em seu primeiro mandato (2017-2021), ele retirou os EUA do Acordo de Paris, chamando-o de “injusto” para a economia americana.
Agora, uma porta-voz da Casa Branca reforçou: “Os EUA não enviarão representantes de alto nível à COP30. O presidente está engajado diretamente com líderes mundiais em questões de energia, como visto em acordos comerciais e de paz com foco em parcerias energéticas.”
Analistas veem nisso uma estratégia para priorizar combustíveis fósseis e empregos domésticos, com Trump usando sua influência para pressionar aliados contra metas de carbono.
Milei, por sua vez, alinha-se ideologicamente ao republicano, com quem mantém “máxima aproximação geopolítica”.
O presidente argentino, conhecido por discursos libertários e críticas ao “alarmismo climático”, viaja aos EUA nesta semana para um fórum com Trump, esnobando a Cúpula em Belém.
Na COP29 (2024), a Argentina de Milei abandonou negociações precocemente, sinalizando desinteresse.
Lyrio adiantou que Buenos Aires pode enviar uma delegação técnica à COP propriamente dita, mas sem chefes de Estado.
Xi Jinping, o terceiro grande ausente, optou por priorizar agendas internas na China, o maior emissor global de CO₂, expandindo usinas a carvão em 2025 mais do que em qualquer ano desde 2016.
Sua ausência, somada à de Trump, deixa um vácuo que analistas como Todd Stern, ex-negociador climático dos EUA, atribuem a “um desengajamento total com o processo da ONU”.
Impactos no Brasil e na COP30: Isolamento ou Oportunidade?Para o Brasil, a ausência desses líderes é um revés simbólico. A COP30, primeira na Amazônia, visa posicionar o país como “líder verde”, com Lula destacando reduções de 50% no desmatamento em 2025 e metas de zero desmatamento até 2030.
No entanto, posts em redes sociais, como os de usuários conservadores no X (antigo Twitter), celebram o boicote como “soberania contra a ‘palhaçada climática'”.
Críticos, como o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO), ironizam: “Acabou o amor? Trump não vem, apesar do que a imprensa disse.”
Marina Silva, ministra do Meio Ambiente, rebate: “A Cúpula é uma oportunidade para metas claras de redução de fósseis, independentemente de ausências. Teremos presença expressiva da América Latina, África e Europa.”
Mais de 100 líderes subnacionais dos EUA, incluindo governadores e prefeitos, comparecerão para preencher o vazio federal, via coalizões como “America Is All In”.
Celebridades como Leonardo DiCaprio, Anitta e o Príncipe William também animam o evento, com shows no Global Citizen Festival.
Desafios logísticos agravam o cenário: 37 delegações ainda negociam hospedagem em Belém, onde a oferta hoteleira é limitada, forçando uma força-tarefa com 4 mil quartos a US$ 200-600/dia.
Lula decretou Garantia da Lei e da Ordem (GLO) com as Forças Armadas até 23 de novembro, mobilizando 19 mil agentes para segurança.
Apesar disso, o evento deve atrair 45-50 mil pessoas, focando em temas como o Fundo Tropical de Florestas (TFFF) e transição energética justa.
Um Evento em Tempos TurbulentosEm um ano de “distrções econômicas e geopolíticas”, como resumiu a Reuters, a COP30 testa a resiliência da diplomacia climática.
Gina McCarthy, da coalizão America Is All In, vê potencial: “Sem Trump, estados e cidades americanas ganham palco maior para mostrar momentum limpo.”
Para o Brasil, é chance de brilhar na liderança Sul-Global, mas o “isolamento” de ausências como Trump e Milei pode diluir acordos bilaterais cruciais.Enquanto Belém se prepara com totens da mascote oficial e reforço no aeroporto (R$ 450 milhões investidos), o mundo observa: será essa conferência um marco ou um eco vazio? A resposta, em 10 dias.















