A menos de quatro dias do início do “tarifaço” anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que impõe uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros a partir de 1º de agosto, o Brasil permanece sem perspectivas de um acordo comercial com a Casa Branca. Enquanto nações como Japão, Reino Unido, Indonésia, Filipinas, Vietnã e União Europeia (UE) conseguiram negociar reduções significativas em suas tarifas, o governo brasileiro enfrenta um impasse diplomático e político, agravado por tensões envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) e o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O Tarifaço e Seus ImpactosAnunciada no início de julho, a tarifa de 50% sobre bens brasileiros é a mais alta entre os países afetados pela nova política protecionista de Trump.
A medida, que visa corrigir déficits comerciais e responder a supostas barreiras tarifárias, pode custar bilhões ao Brasil, que exportou US$ 40,4 bilhões aos EUA em 2024, equivalente a 12% de suas exportações totais. Setores como café (US$ 2 bilhões), carne bovina (US$ 1,6 bilhão), suco de laranja (US$ 1,31 bilhão), celulose, madeira, aço e produtos eletroeletrônicos serão duramente atingidos.
A exportação de carne bovina, por exemplo, já registrou queda de 61% após tarifas iniciais aplicadas em abril.Trump justifica a tarifa com argumentos econômicos, mas também políticos, citando a “perseguição” do STF contra aliados de Bolsonaro, incluindo o ex-assessor Filipe Martins, investigado por suposta fraude em registros migratórios nos EUA.
A Casa Branca aponta ainda “centenas de ordens de censura secretas” do STF contra plataformas americanas de redes sociais, uma acusação que intensifica as tensões bilaterais.
Acordos de Outros PaísesEnquanto o Brasil patina, outros países avançaram em negociações com os EUA:
- Japão: Reduziu a tarifa de 25% para 15%, com compromissos de investir US$ 550 bilhões em energia e abrir mercado para produtos agrícolas e automotivos americanos.
- União Europeia: Negociou uma tarifa de 15% (abaixo dos 30% iniciais) e prometeu US$ 750 bilhões em investimentos no setor energético dos EUA.
- Reino Unido: Conseguiu tarifa de 10%, com isenções para setores como automotivo e carne, além de cotas para exportação de 100 mil carros.
- Indonésia e Filipinas: Reduziram tarifas para 19%, eliminando barreiras para bens americanos.
- Vietnã: Obteve tarifa de 20% e isenção total para suas exportações aos EUA.
- China: Chegou a um acordo preliminar com tarifa de 30%, ainda em fase de ajustes.
O Impasse BrasileiroO Brasil, por sua vez, não conseguiu abrir um canal de diálogo robusto. O vice-presidente Geraldo Alckmin, encarregado das negociações, reuniu-se com o secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, em 24 de julho, mas não obteve resultados concretos. Uma comitiva de oito senadores, liderada por Nelsinho Trad (PSD-MS), iniciou agendas nos EUA nesta segunda-feira (28) para discutir defesa comercial, mas as expectativas são baixas.
O principal obstáculo é a exigência de Trump de que o Brasil reveja o julgamento de Bolsonaro e aliados no STF, acusado de tramar um golpe após os atos de 8 de janeiro de 2023. O caso de Filipe Martins, cujo registro migratório falso foi usado pelo STF para justificar sua prisão preventiva em 2024, é citado por Trump como evidência de interferência judicial. O governo Lula, porém, considera a demanda “inegociável”, defendendo a soberania de suas instituições. “Não aceitaremos ingerência externa em nossa Justiça”, declarou o presidente em pronunciamento recente.
Respostas e EstratégiasO governo brasileiro aprovou a Lei da Reciprocidade Econômica em abril de 2025, que permite retaliar países que prejudiquem suas exportações. Apesar disso, Lula optou por priorizar a diplomacia, evitando escalar o conflito comercial.
O Brasil planeja recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC), mas a paralisia do tribunal da OMC, influenciada pelos EUA, limita as chances de sucesso.Especialistas alertam para os riscos da inação. Lia Valls, economista da FGV, sugere que o Brasil redirecione exportações para mercados como a China, que aumentou em 300% suas importações de terras raras brasileiras em 2025, e acelere acordos no Mercosul. “Precisamos diversificar mercados urgentemente”, afirmou Valls. No entanto, a dependência dos EUA como destino de produtos de alto valor agregado, como suco de laranja e celulose, torna a transição desafiadora.
Tensões PolíticasO tarifaço intensifica o sentimento antiamericano no Brasil e reacende debates internos. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) defendeu negociações diretas com Trump, enquanto o governo Lula enfrenta críticas por sua postura rígida. O caso Filipe Martins, que avança na Justiça americana com a identificação do autor da fraude migratória, adiciona complexidade, com a defesa do ex-assessor alegando manipulação por autoridades brasileiras, o que reforça a narrativa de Trump.
O Que Está em JogoSem um acordo, o Brasil enfrentará perdas econômicas significativas e aumento das tensões diplomáticas. A tarifa de 50%, se implementada, pode redesenhar o comércio exterior brasileiro, forçando o país a buscar novos parceiros comerciais em um cenário global cada vez mais protecionista.
Enquanto outros países celebram acordos, o Brasil segue no escuro, com o relógio correndo contra seus interesses.Para atualizações, acompanhe o andamento das negociações no site do Itamaraty ou da OMC.
Grok/X















