China Sinaliza Abertura para Aumentar Compras de Soja Americana em Negociações Comerciais

Pequim, 27 de agosto de 2025 – Em um movimento que pode aliviar as tensões na guerra comercial global, a China demonstrou abertura para elevar as importações de soja dos Estados Unidos durante as negociações comerciais bilaterais, conforme revelado por fontes próximas ao governo chinês nesta quarta-feira.
A sinalização ocorre em meio a uma escalada de tarifas impostas pelo presidente Donald Trump, incluindo as recentes medidas de 50% sobre produtos de aço de vários países, e representa um possível ponto de inflexão nas relações sino-americanas, que afetam diretamente o agronegócio brasileiro.De acordo com declarações de alto escalão do Ministério do Comércio chinês, obtidas pela agência Reuters, Pequim está disposta a discutir um aumento gradual nas compras de soja americana, visando cumprir metas de importação acordadas no “Acordo Fase Um” de 2020, que foi parcialmente suspenso devido a disputas recentes.
“A China valoriza a estabilidade das cadeias de suprimentos globais e está aberta a negociações construtivas para diversificar fontes de importação, incluindo os EUA”, afirmou um porta-voz oficial em uma coletiva de imprensa em Pequim, sem entrar em detalhes numéricos. Analistas estimam que isso poderia elevar as compras de soja americana em até 20% nos próximos 12 meses, de um patamar atual de cerca de 25 milhões de toneladas anuais para mais de 30 milhões.Contexto das Negociações e Motivações ChinesasAs discussões fazem parte de uma rodada de talks virtuais entre representantes dos EUA e da China, agendadas para esta semana, focadas em resolver impasses comerciais acumulados desde a reeleição de Trump em 2024.
O presidente americano impôs tarifas recíprocas de até 50% sobre importações de diversos países, incluindo a China, alegando “práticas desleais” e déficits comerciais. Em retaliação, Pequim aplicou barreiras não tarifárias a produtos agrícolas americanos, priorizando fornecedores alternativos como o Brasil e a Argentina.A soja, principal commodity agrícola exportada pelos EUA para a China (responsável por cerca de 60% das exportações americanas de soja), tem sido um ponto central de discórdia. Em 2024, as importações chinesas de soja dos EUA caíram para níveis pré-pandemia devido às tarifas, forçando Pequim a aumentar as compras do Brasil em 28%, que agora responde por mais de 70% do suprimento chinês de soja. No entanto, fatores como secas no Centro-Oeste brasileiro e a necessidade de diversificar fontes para mitigar riscos geopolíticos – especialmente com as tensões no Mar do Sul da China – motivam a China a reconectar com os fornecedores americanos.“Essa sinalização é uma jogada estratégica de Pequim para ganhar concessões em áreas como tecnologia e semicondutores, enquanto Trump busca vitórias rápidas no agronegócio para agradar eleitores no Meio-Oeste”, comentou Li Wei, economista do Instituto de Pesquisa Econômica da Academia Chinesa de Ciências Sociais, em entrevista à Bloomberg.
A China, maior importadora mundial de soja, consome cerca de 100 milhões de toneladas por ano para alimentação animal e produção de óleo, e uma interrupção prolongada poderia elevar preços globais em até 15%, segundo projeções da USDA (Departamento de Agricultura dos EUA).
Impactos no Mercado Global e no Brasil
Para os Estados Unidos, o aumento nas compras chinesas de soja poderia injetar bilhões de dólares na economia rural, aliviando o impacto das tarifas sobre exportações industriais. Produtores em estados como Iowa e Illinois, que sofreram perdas de US$ 12 bilhões em 2024 devido à guerra comercial, veem nisso uma oportunidade de recuperação. “É um sinal positivo de que as negociações podem levar a um equilíbrio”, disse o secretário de Comércio americano, Howard Lutnick, em um tuíte postado hoje.
No entanto, o anúncio tem implicações diretas para o Brasil, o maior exportador mundial de soja. Com exportações recordes para a China atingindo US$ 40 bilhões em 2024 (28% do total brasileiro), um retorno das compras americanas poderia reduzir a demanda por soja brasileira em até 10-15 milhões de toneladas, pressionando preços no mercado interno.
“Isso representa um risco para o agro brasileiro, que já enfrenta tarifas americanas de 50% sobre aço e outros produtos”, alertou a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) em nota oficial. Economistas como Paulo Gala, da FGV, preveem uma possível queda de 5% nos preços da soja em Chicago, impactando receitas de produtores em Mato Grosso e Paraná, principais polos exportadores.
Impacto Estimado
EUA
China
Brasil
Aumento de Compras de Soja
+20% (US$ 10-15 bi em receitas)
Diversificação de suprimentos; redução de dependência do Brasil
Queda de 10-15% na demanda; perda de US$ 4-6 bi
Preços Globais
Estabilização em +5%
Custo menor para indústrias de ração
Pressão baixista; possível recessão no agro
Efeitos Macroeconômicos
Crescimento de 0,2% no PIB agrícola
Inflação controlada em alimentos
Redução de 0,1% no PIB; alta do dólar

 

 

 

Perspectivas e Riscos de EscaladaEmbora otimista, a sinalização chinesa não garante um acordo imediato. Trump, conhecido por sua retórica dura, ameaçou tarifas adicionais de 25% sobre bens chineses se as negociações falharem, o que poderia incluir eletrônicos e veículos elétricos.
Por outro lado, a China busca isenções em tecnologias de IA e chips, áreas sensíveis para Washington. Especialistas da Brookings Institution preveem que um acordo parcial sobre soja poderia pavimentar o caminho para talks mais amplos, mas alertam para o risco de uma “guerra fria comercial” se as tensões com aliados como o Brasil se intensificarem.O governo brasileiro, sob o presidente Lula, monitora de perto as negociações, priorizando diversificação para mercados como a Índia e os BRICS. “O Brasil deve reforçar parcerias regionais para mitigar esses choques”, recomendou o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, em declaração à imprensa.
Enquanto isso, o mercado reage com volatilidade: os futuros de soja em Chicago subiram 2,3% hoje, refletindo otimismo cauteloso.Essa abertura da China pode ser o primeiro passo para uma trégua comercial, mas o mundo observa se ela se concretizará em meio ao turbulento cenário geopolítico de 2025.

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