Crédito consignado para o trabalahador CLT pode endividar o Brasil, veja o que diz analistas.

O crédito consignado para trabalhadores CLT pode aumentar o endividamento no Brasil.
O crédito consignado para CLT, que entrou em vigor em 21 de março de 2025, é uma iniciativa do governo federal para oferecer empréstimos com juros mais baixos a trabalhadores com carteira assinada, incluindo empregados domésticos, rurais e contratados por MEIs. As parcelas são descontadas diretamente da folha de pagamento, com uma margem consignável de até 35% do salário, e há a possibilidade de usar até 10% do saldo do FGTS e 100% da multa rescisória como garantia em caso de demissão. A ideia é facilitar o acesso ao crédito e reduzir os juros, que podem cair de cerca de 103% ao ano (média do crédito pessoal) para algo em torno de 40% ao ano, segundo estimativas do governo.

Pode endividar o Brasil?

 

Sim, há potencial para que o crédito consignado aumente o endividamento, mas isso depende de como os trabalhadores e o mercado reagirem. Aqui estão os dois lados da questão:
Argumentos a favor do aumento do endividamento:
  1. Facilidade de acesso: Com mais de 47 milhões de trabalhadores CLT elegíveis e um processo simplificado via Carteira de Trabalho Digital, mais pessoas podem contratar empréstimos. Isso pode levar a um crescimento rápido do volume de crédito, estimado em até R$ 120 bilhões em quatro anos pela Febraban, triplicando os atuais R$ 40 bilhões.
  2. Risco de uso irresponsável: Sem um teto de juros definido para essa modalidade (diferente do consignado do INSS), os bancos podem cobrar taxas altas dentro do limite de mercado, o que ainda assim seria mais barato que o crédito pessoal, mas suficiente para gerar dívidas difíceis de pagar se o trabalhador comprometer os 35% do salário sem planejamento.
  3. Dependência do FGTS: Usar o FGTS como garantia pode comprometer uma reserva importante para emergências ou demissões, deixando o trabalhador mais vulnerável se o emprego for perdido e a dívida não for quitada.
  4. Contexto econômico: Em um momento de desaceleração econômica e juros altos (Selic em 14,25% em março de 2025, segundo projeções), o incentivo ao consumo via crédito pode levar a um ciclo de endividamento, especialmente se a renda não acompanhar a inflação.
Argumentos contra o aumento do endividamento:

 

  1. Substituição de dívidas caras: O governo argumenta que o consignado CLT permitirá que trabalhadores troquem dívidas caras (como cheque especial ou crédito pessoal, com juros acima de 100% ao ano) por uma opção mais barata, reduzindo o custo total do endividamento.
  2. Controle via margem consignável: O limite de 35% do salário bruto para as parcelas impede que o trabalhador comprometa toda a renda, oferecendo uma barreira contra endividamento excessivo.
  3. Estímulo à economia: Com taxas mais acessíveis, o crédito pode aumentar o consumo e aquecer a economia, gerando mais empregos e renda, o que, em teoria, ajudaria a pagar as dívidas contraídas.
  4. Portabilidade: A possibilidade de migrar dívidas entre bancos a partir de 6 de junho de 2025 pode incentivar competição e reduzir ainda mais os juros, aliviando o peso das parcelas.

Conclusão

 

O crédito consignado para CLT tem potencial tanto para endividar quanto para aliviar o endividamento no Brasil.
O resultado dependerá de fatores como o comportamento financeiro dos trabalhadores, a política de juros dos bancos e o desempenho da economia. Especialistas alertam para o risco de maior endividamento se não houver educação financeira adequada, enquanto o governo destaca o benefício de baratear o crédito.
Não há dados concretos ainda, pois a medida começou há apenas três dias (21 de março de 2025), mas o histórico de outras modalidades de consignado sugere que o impacto será significativo, para o bem ou para o mal.
Educação financeira é um pilar essencial para que o crédito consignado para CLT, ou qualquer tipo de crédito, não se torne uma armadilha de endividamento no Brasil. Vou explicar o que ela envolve, por que é crucial nesse contexto e como poderia ser aplicada para evitar que os trabalhadores fiquem reféns de dívidas.

O que é educação financeira?

Educação financeira é o conjunto de conhecimentos e habilidades que permite a uma pessoa gerenciar seu dinheiro de forma consciente. Isso inclui:
  • Entender como funcionam juros, parcelas e o custo real de um empréstimo.
  • Planejar o orçamento para equilibrar receitas, despesas e dívidas.
  • Priorizar gastos essenciais e evitar consumo impulsivo.
  • Construir reservas de emergência para imprevistos.
  • Avaliar os riscos de comprometer a renda a longo prazo.
No caso do crédito consignado CLT, significa, por exemplo, saber que os 35% da margem consignável não devem ser usados automaticamente só porque estão disponíveis, ou entender que usar o FGTS como garantia pode deixar o trabalhador desprotegido no futuro.

Por que é crucial agora?

 

Com a implementação do consignado para CLT em 21 de março de 2025, milhões de trabalhadores têm acesso a um crédito mais barato (juros estimados em 40% ao ano contra 103% do crédito pessoal), mas ainda assim significativo. Sem educação financeira:

 

  1. 1- Risco de superendividamento: Muitos podem pegar o máximo do empréstimo sem calcular se conseguem viver com 65% do salário, especialmente em um cenário de inflação alta (IPCA projetado em 4,5% para 2025).
  2. 2 – Uso inadequado: O crédito pode ser direcionado a gastos supérfluos em vez de quitar dívidas caras ou investir em necessidades reais, como saúde ou educação.
  3. 3 – Falta de preparo para imprevistos: Se o trabalhador for demitido e tiver usado o FGTS como garantia, pode ficar sem reserva e com uma dívida ativa, agravando a situação financeira.
  4. 4 – Exploração por bancos: Sem entender os termos do contrato (como taxas, multas ou portabilidade), o trabalhador pode aceitar condições desfavoráveis.
Dados históricos ajudam a ilustrar o problema: segundo a Serasa, em 2024, 70% dos brasileiros estavam endividados, e muitos recorreram a crédito caro por falta de planejamento.
O consignado CLT, embora mais acessível, não elimina esse risco se o comportamento financeiro não mudar.
Como aplicar educação financeira no contexto do consignado CLT?
  1. Campanhas do governo e empresas: O governo poderia integrar cursos rápidos ou materiais educativos à plataforma da Carteira de Trabalho Digital, onde o consignado é contratado. Empresas poderiam oferecer workshops aos funcionários, já que o desconto é na folha de pagamento.
  2. Simuladores de crédito: Bancos e fintechs poderiam disponibilizar ferramentas simples para mostrar o impacto das parcelas no orçamento mensal e o custo total do empréstimo, ajudando o trabalhador a decidir com clareza.
  3. Orientação nas escolas e comunidades: Incluir noções básicas de finanças no ensino médio ou em programas sociais, como o Minha Casa, Minha Vida, para alcançar trabalhadores informais que podem se formalizar no futuro.
  4. Acompanhamento pós-crédito: Oferecer suporte (via apps ou consultorias gratuitas) para quem já contratou o consignado, ajudando a ajustar o orçamento e evitar atrasos.

Exemplos práticos

 

  • Antes de contratar: Um trabalhador com salário de R$ 2.000 pode consignar até R$ 700 por mês. Com educação financeira, ele calcularia que, após despesas fixas (como aluguel e comida), sobram R$ 900. Pegar o limite total deixaria apenas R$ 200 para imprevistos, o que é arriscado.
  • Trocando dívidas: Se ele tem uma dívida de R$ 5.000 no cartão com juros de 15% ao mês, poderia usar o consignado (juros de 3% ao mês, por exemplo) para quitar isso, economizando centenas de reais em juros, desde que não contrate mais dívidas.

Impacto no Brasil

 

Se bem implementada, a educação financeira pode transformar o consignado CLT em uma ferramenta de inclusão econômica, reduzindo o peso das dívidas caras e estimulando o consumo responsável. Sem ela, o risco é repetir o ciclo de endividamento visto em outras expansões de crédito, como o boom do crédito pessoal nos anos 2000, que deixou muitas famílias inadimplentes. O sucesso da medida depende menos das taxas de juros e mais da capacitação dos trabalhadores para usá-la a seu favor.
GLOK/X

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