Crise no Nepal: Parlamento em Chamas, Primeiro-Ministro Renuncia e Evacuação em Massa de Autoridades

Kathmandu, Nepal – 9 de setembro de 2025
O Nepal mergulhou em um caos político sem precedentes nesta terça-feira, com o edifício do Parlamento federal em chamas, o primeiro-ministro K.P. Sharma Oli renunciando ao cargo e ministros e secretários sendo evacuados às pressas da capital por helicópteros do exército. Os protestos, liderados principalmente por jovens da Geração Z, saíram completamente do controle após denúncias graves de corrupção generalizada no governo e a imposição de censura à internet para combater o que as autoridades chamaram de “fake news”.
Pelo menos 19 pessoas morreram e mais de 300 ficaram feridas em confrontos violentos com as forças de segurança, em um dos piores episódios de instabilidade no país himalaio em décadas.O Início da Fúria PopularOs distúrbios começaram na segunda-feira (8 de setembro), quando milhares de jovens se reuniram em frente ao Parlamento em Kathmandu para protestar contra uma proibição imposta pelo governo a mais de 20 plataformas de mídia social, incluindo Facebook, Instagram, WhatsApp, YouTube e X (antigo Twitter).
A medida, anunciada na semana anterior, exigia que as empresas se registrassem localmente e submetessem-se a supervisão governamental para combater desinformação e crimes cibernéticos. Críticos, no entanto, denunciaram a ação como uma ferramenta de censura para silenciar vozes dissidentes e encobrir escândalos de corrupção.O que começou como uma manifestação contra a restrição digital rapidamente se transformou em um levante mais amplo contra o governo de Oli, acusado de nepotismo, favoritismo e falha em combater a corrupção endêmica. Jovens nepaleses, frustrados com a falta de oportunidades econômicas e a instabilidade política crônica – o Nepal teve 14 primeiros-ministros desde 2008 –, ergueram cartazes com slogans como “Fechem a corrupção, não a mídia social” e “Jovens contra a corrupção”.
Os protestos se espalharam para cidades como Pokhara, Biratnagar e Bharatpur, com multidões invadindo complexos governamentais e ateando fogo a veículos e edifícios.De acordo com relatos da Associated Press e da Reuters, a polícia usou canhões d’água, gás lacrimogêneo, balas de borracha e até munição letal para dispersar os manifestantes, resultando em 19 mortes confirmadas – 17 em Kathmandu e duas em outras cidades.
Mais de 100 pessoas foram hospitalizadas, com relatos de gás lacrimogêneo invadindo hospitais e dificultando o atendimento médico. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos expressou “choque” com o uso excessivo de força e pediu uma investigação transparente.Renúncia de Oli e o Colapso do GovernoNa manhã desta terça-feira, o primeiro-ministro K.P. Sharma Oli, de 73 anos e em seu quarto mandato desde julho de 2024, anunciou sua renúncia em uma carta ao presidente Ram Chandra Poudel. “Considerando a situação extraordinária no país, renuncio imediatamente para facilitar uma solução constitucional e política”, escreveu Oli, segundo seu gabinete.
A decisão veio após conselhos do chefe do Exército nepali, general Ashok Raj Sigdel, que recomendou a saída para estabilizar a nação, e após três ministros – incluindo o de Interior, Ramesh Lekhak, e o de Agricultura, Ramnath Adhikari – já terem renunciado por “responsabilidade moral” na noite anterior.Oli, líder do Partido Comunista do Nepal (UML), formou uma coalizão instável com o Nepali Congress, mas enfrentava críticas por priorizar relações com a China em detrimento de laços tradicionais com a Índia, além de promessas não cumpridas de combater a corrupção.
A renúncia foi aceita pelo presidente, efetivamente derrubando o governo. No entanto, os protestos não arrefeceram: momentos após o anúncio, manifestantes invadiram o complexo do Parlamento em New Baneshwor, ateando fogo a partes do edifício e vandalizando o interior. Vídeos postados em redes sociais mostram chamas e fumaça densa subindo do prédio, com milhares de pessoas acenando bandeiras nacionais e gritando “KP Oli ladrão, saia do país!”.
Evacuação Dramática e Fechamento do AeroportoCom a violência escalando, o Exército nepali foi mobilizado para evacuar autoridades. Pelo menos uma dúzia de helicópteros militares decolou do complexo residencial de Bhaisepati, no sul de Kathmandu, transportando ministros e secretários para locais seguros, incluindo o Aeroporto Internacional Tribhuvan. Fontes do exército confirmaram que mais de 300 soldados foram destacados para proteger o aeroporto, que foi fechado completamente, cancelando todos os voos domésticos e internacionais. Vôos da Índia, como os da IndiGo e Air India, foram desviados, e manifestantes usaram redes sociais para convocar interferências, como fogos de artifício e drones, para atrapalhar as operações.
Residências de líderes políticos foram alvos diretos: a casa particular de Oli em Balkot, Bhaktapur, foi incendiada, assim como as de ex-primeiros-ministros como Pushpa Kamal Dahal (Prachanda) e Sher Bahadur Deuba, o presidente Poudel e o ministro do Interior Lekhak. O Hotel Hilton em Kathmandu, de propriedade de um líder do partido governista, também foi vandalizado e incendiado.
O toque de recolher foi imposto em Kathmandu, Lalitpur e Bhaktapur, com proibições a reuniões e protestos, mas os manifestantes o ignoraram, queimando pneus e bloqueando ruas.Contexto: Corrupção e Censura como EstopimAs denúncias de corrupção são antigas no Nepal, mas ganharam força recente com casos como o escândalo da compra de aviões da Airbus em 2017 pela Nepal Airlines, investigado mas sem conclusões definitivas. O governo de Oli foi acusado de proteger aliados corruptos e de usar a censura digital para suprimir críticas. A proibição de mídias sociais, justificada como medida contra “fake news”, foi vista como um ataque à liberdade de expressão, especialmente entre jovens que dependem das plataformas para notícias, entretenimento e negócios – o Nepal tem 14,3 milhões de usuários de redes sociais, 48% da população.
Organizadores dos protestos, como a ONG Hami Nepal, enfatizam que se trata de uma “revolta da Geração Z” contra a “má governança e o favoritismo”. “Não é só sobre a internet; é sobre recuperar nosso país da corrupção”, disse um manifestante à AFP. Grupos de direitos humanos, como a Anistia Internacional, condenaram o uso de munição letal, e a Índia, vizinha com forte influência no Nepal, emitiu alertas para seus cidadãos exercerem cautela.
O Que Vem a Seguir?Com o governo em colapso, a oposição, incluindo o Nepali Congress, discute a formação de um governo interino ou eleições antecipadas. O presidente Poudel convocou uma reunião de emergência com líderes partidários, mas a instabilidade persiste.
O Aeroporto de Tribhuvan permanece fechado, e o exército apela por “restrição” para evitar mais mortes. Analistas alertam para um vácuo de poder que poderia agravar a economia frágil do Nepal, dependente de remessas de migrantes e turismo.Enquanto fumaça sobe do Parlamento, os jovens nepaleses insistem: “Isso não acaba aqui”. O país, ainda se recuperando de anos de instabilidade pós-monarquia, enfrenta um teste crucial para sua democracia. Atualizações serão fornecidas conforme a situação evoluir.

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