Decisão de Dino para tentar blindar Moraes prejudica afetados pela tragédia de Mariana (MG)

A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino, publicada nesta segunda-feira, 18 de agosto de 2025, que veta a aplicação automática de leis e decisões judiciais estrangeiras no Brasil, está gerando uma onda de críticas por seus impactos nas vítimas da tragédia de Mariana (MG), ocorrida em 2015.
A medida, interpretada como uma tentativa de blindar o ministro Alexandre de Moraes contra sanções impostas pelos Estados Unidos sob a Lei Magnitsky, pode dificultar ações judiciais internacionais movidas por atingidos pelo rompimento da barragem de Fundão, operada pela Samarco (Vale e BHP Billiton). A determinação, com efeito vinculante, expõe um conflito entre a defesa da soberania nacional e o direito à reparação de milhares de brasileiros, reacendendo debates sobre justiça e interesses políticos.
O Escopo da Decisão
A decisão de Dino, proferida no âmbito de uma ação movida pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), estabelece que leis, atos administrativos, ordens executivas e decisões judiciais estrangeiras só terão validade no Brasil após homologação pelo STF ou pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).
O caso teve origem na tentativa de municípios mineiros, como Mariana e Ouro Preto, de buscar indenizações em tribunais ingleses por danos causados pela tragédia de Mariana, sem a chancela do Judiciário brasileiro. Dino classificou essas ações como uma violação da soberania nacional, argumentando que “estados e municípios não têm competência para litigar em cortes estrangeiras sem validação prévia”.O ministro notificou o Banco Central, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e outras entidades financeiras, orientando que operações como bloqueios de ativos ou cancelamentos de contratos por ordens estrangeiras dependem de autorização do STF.
Embora o caso original envolva a mineração, a decisão é amplamente vista como uma resposta às sanções americanas contra Alexandre de Moraes, impostas em julho de 2025, que incluem congelamento de ativos e proibição de transações em dólar devido a decisões judiciais do ministro no Brasil.
Impactos nas Vítimas de Mariana
O rompimento da barragem de Fundão, em 2015, deixou 19 mortos, destruiu comunidades inteiras e causou danos ambientais devastadores no Rio Doce, afetando cerca de 200 mil pessoas, segundo a Associação dos Atingidos pela Barragem de Fundão (AABF). Frustradas com a lentidão da justiça brasileira e acordos de reparação considerados insuficientes, as vítimas, com apoio de prefeituras locais, recorreram a tribunais ingleses, onde a BHP Billiton, coproprietária da Samarco, tem sede. Essas ações buscavam indenizações mais robustas, estimadas em bilhões de dólares.
A decisão de Dino, ao exigir homologação do STF para ações em cortes estrangeiras, ameaça paralisar esses processos. Representantes das vítimas, citados pelo Metrópoles, alertaram que a medida “joga uma década de luta no lixo”, deixando comunidades sem perspectivas de reparação adequada. “Estamos reféns de uma briga política que não é nossa”, declarou Maria Silva, líder comunitária de Bento Rodrigues, um dos distritos mais afetados. A AABF estima que 80% dos processos internacionais em andamento podem ser suspensos, agravando a situação de famílias que ainda vivem em condições precárias.
Blindagem de Moraes e o Contexto Político
A decisão de Dino é percebida como uma tentativa de proteger Alexandre de Moraes das sanções americanas, que o acusam de violar direitos humanos por ordens judiciais, como bloqueios de contas em redes sociais. Dino criticou o que chamou de “neocolonialismo jurídico” e “imposições unilaterais” de potências estrangeiras, reforçando que o Brasil não acatará medidas externas sem cooperação bilateral. A notificação ao setor financeiro visa garantir que bancos brasileiros, como Itaú, Bradesco, Banco do Brasil e Caixa, não cumpram automaticamente ordens de bloqueio de ativos relacionadas a Moraes, sob pena de violar a soberania nacional.
A medida, no entanto, gerou críticas por priorizar a defesa de Moraes e do STF em detrimento das vítimas de Mariana. Posts no X acusam Dino de “usar a soberania como pretexto para proteger aliados”, enquanto outros defendem a decisão como necessária para resistir a pressões externas, como as tarifas de 50% impostas por Trump sobre exportações brasileiras e a investigação comercial contra o Pix. O governo Lula, por meio da Advocacia-Geral da União (AGU), prepara uma resposta formal às sanções americanas, mas ainda não se pronunciou sobre os impactos em Mariana.
Reações e Consequências no Setor Financeiro
A decisão cria um dilema para bancos brasileiros, especialmente aqueles com operações internacionais. Cumprir as sanções americanas pode significar desobedecer ao STF, enquanto seguir a determinação de Dino pode levar a sanções secundárias dos EUA, como multas ou exclusão do sistema SWIFT. Bancos como Banco do Brasil e Caixa, com foco doméstico, estão menos expostos, mas Itaú e Bradesco registraram quedas de 2,7% e 2,4%, respectivamente, na B3 hoje, segundo o Valor Econômico, refletindo a incerteza regulatória.
Organizações como a Human Rights Watch criticaram a decisão, alertando que ela “restringe o acesso à justiça internacional para vítimas de desastres ambientais”. O Ministério de Minas e Energia prometeu buscar soluções, como acordos bilaterais com o Reino Unido, mas a viabilidade dessas negociações é incerta.
O Caminho Adiante
A audiência pública convocada por Dino será um momento decisivo para esclarecer como o Brasil conciliará soberania e justiça internacional.
As vítimas de Mariana exigem medidas urgentes para evitar mais atrasos na reparação, enquanto o STF busca afirmar sua autoridade em um cenário de pressões internas e externas.
A decisão também intensifica as tensões com os EUA, em um contexto já marcado por disputas comerciais e sanções, exigindo do governo Lula uma estratégia diplomática cuidadosa.
Conclusão
A decisão de Flávio Dino, ao tentar blindar Alexandre de Moraes e reforçar a soberania jurídica, impõe um custo elevado às vítimas da tragédia de Mariana, que veem suas esperanças de reparação em cortes internacionais ameaçadas. O Brasil enfrenta o desafio de proteger sua autonomia sem negligenciar os direitos de seus cidadãos, em um equilíbrio delicado entre justiça, política e relações internacionais. O desfecho dependerá da capacidade do STF e do governo de encontrar soluções que não penalizem ainda mais os atingidos por uma das maiores tragédias ambientais do país.
Fonte: Supremo Tribunal Federal, Metrópoles, Valor Econômico, O Globo, Posts no X.

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