Caracas, 5 de janeiro de 2026
Em um surpreendente giro diplomático, a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, estendeu nesta domingo (4) uma oferta formal de diálogo e cooperação ao governo dos Estados Unidos, apenas um dia após a operação militar americana que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores.
Em comunicado publicado em suas redes sociais — incluindo Instagram e Telegram —, e divulgado tanto em espanhol quanto em inglês, Rodríguez dirigiu-se diretamente ao presidente Donald Trump e afirmou que “nossos povos e nossa região merecem a paz e o diálogo, não a guerra”.
A mensagem marca uma mudança significativa no tom do chavismo, que tradicionalmente adota uma postura de confronto com Washington.Principais trechos do comunicado de Delcy RodríguezRodríguez destacou a “vocação de paz” da Venezuela e defendeu a construção de relações internacionais “equilibradas e respeitosas” entre os dois países, baseadas na igualdade soberana e na não ingerência nos assuntos internos.
“Extendemos uma invitación ao governo dos Estados Unidos para trabalhar conjuntamente em uma agenda de cooperação, orientada ao desenvolvimento compartilhado, no marco da legalidade internacional e para fortalecer uma convivência comunitária duradoura”, escreveu a líder interina.
Ela reiterou que essa posição de diálogo sempre foi defendida por Nicolás Maduro — atualmente detido em Nova York, onde enfrentará acusações de narcoterrorismo, narcotráfico e tráfico de armas —, e enfatizou o direito da Venezuela à paz, ao desenvolvimento, à soberania e a um futuro próspero.
Contexto da crise O apelo ocorre em meio à grave tensão gerada pela operação militar dos EUA em Caracas, no sábado (3), que resultou na captura de Maduro e na morte de dezenas de pessoas, incluindo 32 cubanos que integravam a segurança presidencial, segundo informações do governo cubano.
Após o ataque, o Tribunal Supremo de Justiça venezuelano designou Rodríguez — até então vice-presidente executiva — como presidente interina. No sábado, ela havia adotado tom mais duro, qualificando a ação americana como “barbarie” e “sequestro”, e reafirmando Maduro como o “único presidente legítimo”.Porém, o comunicado de domingo representa uma clara tentativa de distensão, vista por analistas como uma estratégia pragmática para estabilizar o poder interno, preservar o apoio das Forças Armadas e evitar uma escalada militar maior.Reação dos Estados UnidosDo lado americano, o presidente Donald Trump manteve a pressão.
Em declarações a bordo do Air Force One e em entrevistas, Trump afirmou que os EUA estão “a cargo” da Venezuela durante a transição e exigiu “acesso total” aos recursos do país, especialmente ao petróleo. Ele também ameaçou que Rodríguez “pagará um preço muito alto — provavelmente maior que o de Maduro” caso não coopere plenamente.
Apesar das ameaças públicas, fontes indicam que já existem contatos indiretos entre autoridades americanas (incluindo o secretário de Estado Marco Rubio) e o entorno de Rodríguez.Repercussão internacional e interna
A mudança de tom gerou reações divididas. Enquanto aliados tradicionais do chavismo (como Cuba, Rússia e China) mantêm críticas à intervenção americana, setores da oposição venezuelana e observadores internacionais veem no gesto de Rodríguez uma possível abertura para negociações que possam evitar um conflito prolongado.
A situação segue extremamente fluida: Maduro deve comparecer nos próximos dias a um tribunal federal em Nova York, enquanto Caracas tenta reorganizar o governo em meio a uma transição forçada e sob forte influência externa.Com este chamado ao diálogo, Delcy Rodríguez busca posicionar-se como figura de estabilidade em um cenário de incerteza, apostando na diplomacia para preservar o legado chavista em um novo equilíbrio de forças na região.















