© Marcello Casal JrAgência Brasil
As famílias brasileiras estão enfrentando um peso crescente no orçamento devido ao endividamento, com cerca de 10% da renda mensal sendo destinada exclusivamente ao pagamento de juros de dívidas, segundo um estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) divulgado em agosto de 2025.
O levantamento aponta que o aumento da inadimplência e a alta dos juros no Brasil, impulsionados pela Selic a 11,75% ao ano, têm pressionado os orçamentos domésticos, especialmente entre as classes C e D, agravando a crise financeira em um cenário de inflação persistente e tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos.
Endividamento em AltaDe acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) da CNC, 78,9% das famílias brasileiras estavam endividadas em julho de 2025, um aumento de 2,3 pontos percentuais em relação ao mesmo período de 2024. Dessas, 29,7% apresentavam dívidas ou contas em atraso, e 12,3% declararam não ter condições de quitar os débitos. O cartão de crédito segue como o principal vilão, respondendo por 85% das dívidas, seguido por carnês (15%) e crédito pessoal (9%).
O estudo destaca que, em média, as famílias destinam 10% de sua renda mensal ao pagamento de juros, sem contar a amortização do principal.
Para uma família com renda média de R$ 2.500, isso representa R$ 250 mensais apenas em encargos financeiros.
“É um ciclo vicioso: as famílias recorrem ao crédito para cobrir despesas essenciais, mas os juros altos consomem uma fatia significativa do orçamento, reduzindo o poder de compra”, explica José Roberto Tadros, presidente da CNC.
Contexto Econômico e Tarifas AmericanasA pressão financeira coincide com desafios macroeconômicos. A Selic, mantida em 11,75% pelo Banco Central desde junho de 2025, reflete a tentativa de conter a inflação, que atingiu 4,8% no acumulado de 12 meses até julho, acima da meta de 3%. Além disso, as tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, efetivadas em 6 de agosto de 2025, impactam o custo de vida. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que essas tarifas, que afetam setores como carne e café, podem elevar os preços de alimentos em até 3,5% no mercado interno, reduzindo ainda mais a renda disponível das famílias.O aumento no custo de itens essenciais, como alimentos (alta de 6,2% em 2025) e energia elétrica (7,8%), força muitas famílias a recorrerem a empréstimos para cobrir despesas básicas.
“Com o orçamento já comprometido, qualquer imprevisto, como uma conta de luz mais alta, empurra as pessoas para o crédito caro”, aponta Izis Ferreira, economista da CNC.Impactos nas Classes SociaisAs classes C e D, que representam 60% da população brasileira, são as mais afetadas. Segundo a CNC, 82% das famílias com renda de até dois salários mínimos estão endividadas, e 35% delas têm dívidas em atraso. O uso do cartão de crédito para compras parceladas de supermercado, prática comum entre essas famílias, gera juros acumulados que chegam a 400% ao ano em caso de pagamento mínimo.
Em contrapartida, famílias de renda mais alta (acima de 10 salários mínimos) destinam apenas 6% da renda a juros, beneficiadas por acesso a linhas de crédito mais baratas.Regiões como o Nordeste, onde o desemprego permanece elevado (9,2% em julho de 2025), enfrentam maior vulnerabilidade.
Em estados como Pernambuco e Bahia, relatos de famílias cortando gastos com saúde e educação para pagar dívidas são cada vez mais comuns.Respostas do Governo e PerspectivasO governo Lula lançou o programa “Desenrola Brasil” em 2023, que renegociou R$ 50 bilhões em dívidas para 14 milhões de pessoas até julho de 2025, mas a adesão caiu no último trimestre devido à burocracia e à falta de divulgação.
O Ministério da Fazenda estuda novas medidas, como a ampliação de microcrédito com juros subsidiados, mas enfrenta resistência do Banco Central, que prioriza o controle inflacionário.A CNC sugere que, sem uma redução na taxa de juros ou alívio nas tarifas americanas, o endividamento pode alcançar 80% das famílias até o final de 2025, com impactos no consumo e na recuperação econômica. “O governo precisa agir rápido para proteger as famílias de baixa renda, ou veremos uma crise social mais profunda”, alerta Tadros.Sentimento PúblicoPostagens no X refletem a angústia das famílias, com relatos de dificuldades para pagar contas e críticas aos juros altos dos bancos. Alguns usuários culpam as políticas econômicas do governo, enquanto outros apontam as tarifas americanas como agravantes.
Contudo, essas postagens são inconclusivas e refletem apenas o sentimento momentâneo.Cenário FuturoCom a perspectiva de manutenção da Selic em patamares elevados e sem solução imediata para a crise comercial com os EUA, as famílias brasileiras enfrentam um 2025 desafiador. Especialistas recomendam planejamento financeiro, como evitar novas dívidas e priorizar o pagamento de juros altos, mas reconhecem que, para muitos, a margem para ajustes é mínima. A renegociação de dívidas e o fortalecimento de programas de apoio serão cruciais para aliviar a pressão sobre o orçamento doméstico.Para mais detalhes, acesse www.cnc.org.br ou www.gov.br/economia.
Este artigo foi elaborado com base no estudo da CNC de agosto de 2025, dados do Banco Central















