São Paulo, 27 de agosto de 2025 –
O impacto das tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, anunciadas pelo presidente Donald Trump e em vigor desde o início de agosto, já se reflete no mercado de trabalho nacional.
Empresas de setores como madeira, carne bovina, calçados e frutas relatam as primeiras demissões em massa, com estimativas de até 320 mil postos de trabalho em risco no pior cenário.
A medida, justificada por Trump como resposta à “perseguição política” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e a supostas barreiras comerciais, tem gerado prejuízos bilionários e forçado cortes para preservar a sobrevivência das companhias, segundo entidades como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e o Ministério do Trabalho.Embora o governo brasileiro tenha anunciado exceções que poupam cerca de 40-45% das exportações (como aeronaves, petróleo e suco de laranja), os setores não isentos enfrentam uma queda drástica na competitividade.
A tarifa adicional de 40% sobre a base de 10% anterior eleva o custo total para 50% em itens como café, carne, madeira processada e eletrônicos, inviabilizando contratos e levando a paralisações. Analistas da XP Investimentos e do BNDES alertam para uma redução de 0,2% no PIB em 2025, com o desemprego como principal consequência imediata.Setores Mais Afetados e Primeiras DemissõesO “tarifaço” tem atingido em cheio indústrias dependentes do mercado americano, que absorve 12% das exportações brasileiras (US$ 40,4 bilhões em 2024).
Relatos de demissões surgem especialmente no Sul e Sudeste, regiões que concentram 80% das exportações afetadas.
- Indústria de Madeira (Paraná e Santa Catarina): O setor, que exporta 50% de sua produção para os EUA (usada na construção civil americana), é um dos mais atingidos.
- A Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci) relata que cerca de 180 mil empregos diretos estão em risco. Empresas como a Sudati (PR/SC) já demitiram 100 funcionários de um quadro de 2.800, enquanto a Millpar paralisou operações em Quedas do Iguaçu (PR), resultando em 300 demissões.
- Férias coletivas afetam milhares, e a Abimci estima um “efeito dominó” em pequenas fornecedoras, com potencial perda de 10 mil vagas só no Paraná. “O mercado americano é estratégico; sem ele, não há substituto imediato”, alerta Paulo Roberto Pupo, superintendente da entidade.
- Carne Bovina e Avicultura: O Brasil fornece 23% da carne bovina importada pelos EUA, mas as tarifas ameaçam US$ 1 bilhão em perdas no segundo semestre. Gigantes como JBS e Marfrig relatam cancelamentos de contratos, levando a reduções de produção e demissões iniciais em abatedouros no RS e MT.
- A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) estima 40 mil empregos em risco no agropecuário. No setor de aves, exportações de frango caem, com impactos em SC e PR.
- Calçados e Têxtil (Franca-SP): O Sindicato da Indústria de Calçados de Franca (Sindifranca) projeta perda de US$ 15 milhões em exportações, ameaçando 1.200-1.500 vagas. Empresas já impõem férias coletivas e demissões pontuais, com o setor têxtil (sem isenções gerais) enfrentando concorrência de rivais como Vietnã e China.
- Frutas e Pescados (Vale do São Francisco-PE e ES): A Valexport alerta para 1,2 milhão de empregos na cadeia de frutas (manga, abacaxi) em risco, com 250 mil diretos. No ES, a indústria pesqueira pede R$ 900 milhões em crédito emergencial para evitar falências e demissões. Pedras naturais (mármore e granito) já registram 100 pequenas empresas paralisadas, com o Sindimármore relatando demissões e ações judiciais.
- Outros Setores: Máquinas e equipamentos (WEG, Tupy) veem exportações inviabilizadas, com planos de migração para México. A Taurus (armas, RS) cogita transferir operações para os EUA, arriscando 15 mil empregos. No total, o Núcleo de Estudos em Modelagem Econômica (Nemea/UFMG) estima até 110 mil demissões, enquanto o ministro Luiz Marinho (Trabalho) fala em 320 mil no pior caso.
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Setor
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Exportações para EUA (2024)
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Demissões Estimadas
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Empresas Afetadas
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Madeira
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US$ 2 bi (50% da produção)
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10-20 mil (inicial)
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Sudati, Millpar
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Carne Bovina
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US$ 1,6 bi
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40 mil (agro)
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JBS, Marfrig
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Calçados
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US$ 15 mi (perda projetada)
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1.200-1.500
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Sindifranca
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Frutas/Pescados
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US$ 1 bi+ (cadeia)
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250 mil diretos
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Valexport, Sindimármore
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Máquinas/Armas
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US$ 3 bi
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15 mil (Taurus)
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WEG, Tupy
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Resposta do Governo e Medidas de MitigaçãoO governo Lula invocou a Lei de Reciprocidade Econômica (abril 2025) para contramedidas proporcionais, mas prioriza alívio interno via Plano Brasil Soberano (lançado em 13/08), com R$ 30 bilhões em créditos do Fundo Garantidor de Exportações (FGE).
Medidas incluem:
- Preservação de Empregos: Criação da Câmara Nacional de Acompanhamento do Emprego para monitorar impactos e mediar acordos coletivos (redução de jornada, lay-off, suspensão de FGTS/Previdência). Superintendências regionais do Trabalho fiscalizam cumprimento.
- Apoio Financeiro: Linhas de crédito subsidiado (condicionado a não demissões), extensão do Reintegra (reembolso de até 6% em impostos para exportadores) e compras governamentais simplificadas para produtos afetados (ex.: carnes para merenda escolar).
- Diplomacia: Negociações via OMC (embora paralisada) e lobby com empresas americanas (Amcham, GM, Coca-Cola) para mais isenções. Alckmin reuniu-se com executivos dos EUA, que apoiam reversão. Lula: “Não aceitaremos tutelagem, mas dialogamos por soberania”.
Estados como PR, RS e GO anunciam créditos emergenciais. O BNDES estuda postergação de dívidas, mas analistas como Paulo Gala (FGV) alertam para risco de recessão se juros do BC subirem (atual 15%).Perspectivas e RiscosEmbora o Brasil seja menos dependente dos EUA (exportações = 20% do PIB) que México (75%), a escalada pode piorar com a nova tarifa de 50% sobre aço (anunciada hoje, 27/08), afetando US$ 2,9 bi em exportações.
Diversificação para China (28% das vendas) mitiga, mas preços internos caem (ex.: vergalhão -1,4%), pressionando margens. Economistas do Goldman Sachs mantêm PIB em 2,3% para 2025, graças a exceções, mas veem inflação e dólar alto como ameaças.Para empresas, a recomendação é redirecionar mercados (Ásia, BRICS) e usar exceções. O governo prioriza negociações bilaterais para evitar isolamento, mas Trump ameaça +50% se houver retaliação. Setores como agro e siderurgia sofrem mais, mas há otimismo em acordos setoriais (ex.: nióbio para baterias). A OMC pode mediar, mas seu sistema está inativo. Fique atento: o tarifaço é mais político que econômico, mas seus efeitos no emprego são reais e imediatos.















