Governo teme mais sanções dos EUA por condenação de Jair Bolsonaro

O governo brasileiro vive um clima de apreensão com a possibilidade de novas sanções econômicas e diplomáticas impostas pelos Estados Unidos em retaliação à condenação iminente do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no Supremo Tribunal Federal (STF).
O julgamento, iniciado na terça-feira (2 de setembro) na Primeira Turma da Corte, pode resultar em uma pena superior a 40 anos de prisão para Bolsonaro e outros sete réus acusados de liderar uma organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) descreve o ex-presidente como o “principal articulador e maior beneficiário” da trama golpista que visava subverter o resultado das eleições de 2022, vencidas por Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Auxiliares do Palácio do Planalto alertam que uma sentença desfavorável poderia agravar a crise bilateral com Washington, já tensionada por tarifas de 50% sobre exportações brasileiras e sanções pessoais contra o ministro Alexandre de Moraes, relator do caso.
O julgamento, que deve se estender por sessões nos dias 2, 3, 9, 10 e 12 de setembro, ocorre em um contexto de forte pressão internacional. O presidente Donald Trump, aliado histórico de Bolsonaro, tem usado o caso como justificativa para medidas punitivas contra o Brasil. Em carta enviada ao ex-presidente em julho, Trump qualificou o processo como uma “caça às bruxas” e exigiu seu encerramento imediato, sob pena de retaliações. Desde então, os EUA revogaram vistos de Moraes, seus familiares e “aliados” no STF, além de impor sanções financeiras sob a Lei Global Magnitsky, que congelam ativos e proíbem transações em dólares com o ministro.
Trump também anunciou uma investigação por “práticas comerciais desleais”, incluindo o sistema Pix, e tarifas de 50% sobre produtos como carne bovina, café e calçados, em vigor desde 6 de agosto. Especialistas estimam que essas medidas já possam custar R$ 110 bilhões ao PIB brasileiro em uma década e eliminar 618 mil empregos, especialmente no agronegócio e na indústria de transformação.Tensões diplomáticas e lobby de Eduardo BolsonaroA escalada começou em julho, quando Moraes determinou medidas cautelares contra Bolsonaro, como uso de tornozeleira eletrônica, prisão domiciliar noturna e proibição de contato com réus ou autoridades estrangeiras. Horas depois, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, anunciou a revogação de vistos, acusando Moraes de “perseguição e censura abrangente”.
O deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente e radicado nos EUA desde março, tem liderado um lobby intenso em Washington para ampliar as punições. Em entrevistas recentes ao Financial Times e à Reuters, Eduardo alertou para “mais sanções e tarifas” se o STF prosseguir com o julgamento, defendendo que Trump “não esgotou suas opções”. Ele se reuniu com autoridades de alto escalão, incluindo conselheiros de Trump, e planeja viagens à Europa para pressionar a União Europeia por medidas semelhantes contra Moraes, citando apoios de eurodeputados de extrema-direita como o polonês Dominik Tarczyński.
A PF investiga se as ações de Eduardo, financiadas com até US$ 2 milhões enviados por Jair Bolsonaro, configuram obstrução de justiça e coação a autoridades. Relatórios apontam que o deputado articulou sanções em troca de uma anistia aos envolvidos no 8 de Janeiro de 2023, quando apoiadores invadiram as sedes dos Três Poderes. O governo Trump, por sua vez, vê o caso como uma violação de direitos humanos, com o secretário do Tesouro, Scott Bessent, acusando Moraes de “censura opressiva e detenções arbitrárias”.
Aliados de Bolsonaro nos EUA, como o ex-estrategista Jason Miller, reforçam que as sanções visam “libertar presos políticos” e pressionar por uma “normalidade institucional”.Riscos econômicos e perspectivas de retaliaçãoFontes do governo brasileiro projetam que uma condenação de Bolsonaro poderia desencadear um “pacote de sanções” ainda mais severo. Opções em discussão em Washington incluem: ampliação das tarifas para 100% em mais produtos; sanções Magnitsky contra outros ministros do STF, como Flávio Dino e Cristiano Zanin; exclusão do Brasil do sistema Swift de transações internacionais; e congelamento de reservas em dólares custodiadas nos EUA.
Economistas como Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, alertam para um “efeito cascata”: desvalorização do real, alta da inflação, elevação dos juros e fuga de investimentos estrangeiros. Setores como aviação e agropecuário, dependentes do mercado americano, enfrentariam perdas bilionárias.
O governo Lula considera respostas recíprocas, como quebra de patentes de remédios americanos e tributação de streaming, mas prioriza canais diplomáticos. O Itamaraty convocou o encarregado de negócios dos EUA para protestar contra a “chantagem política”, e Lula classificou as tarifas como “inaceitável interferência”.
No entanto, especialistas como Guilherme Casarões, da FGV, veem pouca margem de negociação: “Trump busca estrangular a economia brasileira em defesa ideológica de Bolsonaro, criando uma tempestade perfeita de pressões geopolíticas”. A defesa de Bolsonaro nega irregularidades, alegando “lawfare” e ausência de provas concretas de execução do golpe, e pede absolvição ou prisão domiciliar humanitária, citando a saúde do ex-presidente.O que dizem os envolvidos

  • Defesa de Bolsonaro: “O processo é uma perseguição política sem base jurídica. Não há execução do crime, apenas discussões constitucionais”, afirmou o advogado em alegações finais.

 

  • PGR (Paulo Gonet): “Bolsonaro instrumentalizou o Estado para atacar instituições e propagar narrativas inverídicas, culminando em instabilidade social.”
  • Governo Trump (Marco Rubio): “Moraes viola direitos básicos, estendendo censura a americanos. Sanções são solidariedade ao povo brasileiro.”
  • Governo Lula: Em nota, o Planalto reafirmou a soberania e o compromisso com a democracia, sem comentar o julgamento diretamente.

O STF reservou sessões exclusivas para o caso, com Moraes como relator. Uma reversão só seria possível com anistia no Congresso, dividida sobre o tema, ou indulto presidencial – improvável sob Lula.

Analistas como Silvio Cascione, do Inter, preveem que a pressão americana persista até 2026, podendo influenciar as eleições. Enquanto isso, o Brasil monitora o julgamento de perto, sabendo que o veredicto pode redefinir não só o destino de Bolsonaro, mas as relações bilaterais com os EUA.
Atualizações serão fornecidas conforme o andamento das sessões.

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