São Paulo/Brasília –
Em mais um episódio de tensão entre o governo de Donald Trump e autoridades brasileiras alinhadas à esquerda, o consulado dos Estados Unidos em São Paulo revogou o visto americano da presidente nacional do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Paula Coradi, nesta sexta-feira (26).
A decisão, comunicada por e-mail, foi justificada por “informações obtidas” que tornariam a dirigente “inelegível” para entrada no país, sem detalhes específicos. Coradi, historiadora e ativista de 45 anos, classificou a medida como uma “retaliação política” à defesa da soberania brasileira pelo PSOL, especialmente em meio a disputas comerciais e ideológicas com Washington.
O cancelamento ocorre no contexto de um visto emitido em 2018, com validade até 2028, que Coradi usou recentemente para viajar a Chicago em agosto, onde participou de uma convenção de lideranças socialistas. Após o extravio de seu passaporte, ela solicitou um novo documento, mas foi notificada na segunda-feira (22) sobre a revisão.
Teve três dias úteis para apresentar explicações – enviadas na quinta-feira (25), reiterando a ausência de antecedentes criminais ou atividades ilícitas.
Apesar disso, o consulado confirmou a revogação na sexta, invocando a seção 221(i) da Lei de Imigração e Nacionalidade dos EUA, que permite cancelamentos mesmo após emissão.“Não é um ataque pessoal, mas um ataque ao PSOL pelo nosso comprometimento com a soberania.
Se pensam que vão nos intimidar com essas medidas tacanhas, esses fascistas estão muito enganados”, declarou Coradi em postagem no X, onde o tema já acumula milhares de interações.
O partido emitiu nota de repúdio, chamando a ação de “perseguição e intimidação” e reafirmando o compromisso com a “defesa da democracia e da soberania nacional contra políticas arbitrárias de governos estrangeiros”.Tensões Bilaterais em EscaladaA revogação de Coradi se soma a uma série de sanções impostas pela administração Trump desde sua posse em janeiro de 2025. Nos últimos meses, os EUA suspenderam vistos de sete ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), do ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, da família do ministro da Saúde Alexandre Padilha – incluindo a filha de 10 anos – e, nesta semana, do chefe da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias.
As justificativas variam de “violações à liberdade de expressão” em decisões judiciais contra redes sociais americanas a supostas irregularidades no programa Mais Médicos e no processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro no STF.Analistas apontam que as medidas são retaliações a políticas do governo Lula, como tarifas de importação sobre produtos americanos e críticas à agenda “America First” de Trump. “É uma escalada diplomática clara: Trump usa vistos como arma contra opositores ideológicos no Brasil, enfraquecendo laços com a esquerda”, comentou o professor de Relações Internacionais da USP, Carlos Eduardo Lino, à CNN.
Coradi, eleita presidente do PSOL em 2023, tem sido vocal contra o “imperialismo yankee”, defendendo a soberania em debates sobre comércio e meio ambiente.Reações: Solidariedade e CríticasNas redes sociais, o caso explodiu. O deputado federal Guilherme Boulos (PSOL-SP), pré-candidato à Presidência em 2026, tuitou: “Os EUA cassarem o visto da nossa presidenta Paula Coradi só mostra que estamos do lado certo: dos interesses dos brasileiros contra os ataques de Trump. O PSOL não aceita intimidação”.
A nota do partido recebeu apoio de aliados como o PT e o PCdoB, que veem na ação um “ataque à democracia brasileira”.Do outro lado, perfis conservadores ironizaram. Usuários no X, como
@BrazilenDireita
, postaram: “Oxi? EUA cancelam visto de presidente nacional do PSOL”, com memes celebrando a medida como “justiça poética”.
A colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, destacou que Coradi teme impactos em agendas políticas nos EUA, mas “não tem grandes interesses em férias por lá”.
O Estadão relatou parlamentares reagindo com “Não aceitaremos intimidação”.Internacionalmente, o caso ganhou eco na Al Jazeera, que o ligou a “tensões Trump-Lula”, e no The Guardian, como exemplo de “diplomacia coercitiva”.
O consulado americano em São Paulo não respondeu a pedidos de comentário até o fechamento desta edição.Implicações para o PSOL e a Política ExternaPara Coradi, obter um novo visto exigirá um processo completo, com entrevistas e taxas, o que pode complicar viagens futuras – incluindo eventos acadêmicos ou articulação com movimentos de esquerda nos EUA. Politicamente, o episódio fortalece a narrativa do PSOL como “vítima do imperialismo”, podendo impulsionar sua base em um ano eleitoral. No entanto, críticos internos alertam para o risco de isolamento diplomático.Enquanto isso, o Itamaraty monitora o caso, mas evitou pronunciamentos oficiais.
Trump, em coletiva recente, defendeu as revogações como “medidas de segurança nacional”. Resta saber se essa onda de cancelamentos azedará ainda mais as relações Brasil-EUA, ou se servirá de catalisador para negociações.
O PSOL, por sua vez, planeja uma nota conjunta com partidos de esquerda latino-americanos em solidariedade a Coradi.
Atualizações: O consulado dos EUA e o PSOL não emitiram novos comunicados até as 18h de sábado (27).















