Em meio a uma escalada de tensões comerciais globais e com o horizonte eleitoral de 2026 se aproximando, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a sinalizar a possibilidade de revogar a polêmica “taxa das blusinhas” – o imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, majoritariamente oriundas da China.
A medida, que entrou em vigor em agosto de 2024, tem sido criticada por consumidores como uma barreira ao acesso a produtos acessíveis em plataformas como Shein, AliExpress e Shopee. Fontes do Palácio do Planalto revelam que o tema ganha tração na Secretaria de Comunicação Social (Secom), com vistas a impulsionar a imagem do petista junto ao eleitorado jovem e de baixa renda, em um momento de queda nas pesquisas de aprovação.A discussão ressurge em um contexto de disputas entre China e Estados Unidos, que impuseram tarifas recíprocas elevadas sobre produtos de ambos os lados – uma redução temporária de 145% para 30% nas tarifas americanas sobre itens chineses foi acordada por 90 dias, mas a instabilidade persiste.
O governo brasileiro, alinhado historicamente com Pequim, vê na revogação um “gesto de boa vontade” à maior parceira comercial do país, que exportou US$ 1,5 bilhão em bens de pequeno valor para o Brasil nos primeiros meses de 2023, segundo dados do Banco Central. Internamente, a iniciativa é interpretada como uma jogada populista para reconquistar apoio popular: Lula, que sancionou a taxação em junho de 2024 após pressão do Centrão, já se manifestou contra ela, alegando ter cedido a interesses parlamentares.
Um histórico de idas e vindas: da isenção à taxação e agora ao possível fimA saga da “taxa das comprinhas” começou em 2023, logo no início do terceiro mandato de Lula. Inicialmente, o governo anunciou o fim da isenção para remessas de até US$ 50 entre pessoas físicas, sob o argumento de combater fraudes usadas por e-commerces estrangeiros para driblar o Imposto de Importação de 60%. A medida, que poderia arrecadar R$ 8 bilhões anuais, foi recuada dias após a viagem de Lula à China, a pedido do presidente, que priorizou relações bilaterais com Xi Jinping. “O presidente nos pediu para tentar resolver isso do ponto de vista administrativo”, afirmou o então ministro Fernando Haddad à época.
Pressões do varejo nacional, como a Associação Brasileira de Varejo Têxtil (Abvtex), e do Congresso culminaram na sanção da Lei 14.902 em junho de 2024, que impôs os 20% sobre compras abaixo de US$ 50 a partir de 1º de agosto – exceto para medicamentos. Lula vetou trechos que restringiam importações usadas, mas manteve a essência da taxação, gerando críticas de consumidores que viram preços de itens como roupas e acessórios subirem até 25%.
Agora, com as eleições presidenciais de 2026 no radar – e Lula já declarando intenções de concorrer à reeleição –, o Planalto sonda o Centrão para uma revogação via projeto de lei ou medida provisória.Pesquisas recentes, como o Datafolha de julho de 2025, mostram a reprovação ao governo em 40%, estável, mas com Lula abrindo vantagem em simulações eleitorais sobre rivais como Tarcísio de Freitas (Republicanos).
A revogação poderia ser um “fato novo” para reverter essa tendência, especialmente entre jovens urbanos que consomem vorazmente nas plataformas chinesas. “É uma manobra oportunista, com contornos eleitoreiros, priorizando curto prazo sobre estratégia econômica”, critica João Eloi Olenike, do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), que alerta para o risco de agravar a concorrência desleal ao varejo nacional.
Reações divididas: aplausos de consumidores, críticas da oposição e do setor produtivoNas redes sociais, a notícia explodiu nesta segunda-feira (17), com postagens viralizando no X (antigo Twitter).
Perfis como
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destacaram: “De olho em 2026, Palácio do Planalto volta a cogitar o fim da taxa das comprinhas da China; possibilidade é discutida com mais força na Secom, visando impulsionar a popularidade de Lula.” Usuários celebram a potencial economia – uma blusa de US$ 20, por exemplo, que hoje custa R$ 110 com impostos, poderia voltar a R$ 90 –, mas há quem acuse o governo de “populismo descarado”.
“Lula cedeu ao Centrão para taxar, agora quer reverter para votos. Tudo pra ganhar voto, passada as eleições retoma as taxas”, ironizou um internauta em resposta a uma postagem da
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.A oposição, liderada pelo PL de Jair Bolsonaro, já reage com veemência. “É o mesmo Lula que criticou a taxação e agora usa para campanha. Hipocrisia pura, enquanto o varejo brasileiro sangra”, disparou o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) em suas redes.
Entidades como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) alertam para perdas de até R$ 10 bilhões anuais em empregos no setor têxtil, argumentando que a isenção fomenta dependência de importações baratas e sonegação. Por outro lado, o PT defende a medida como “defesa do consumidor pobre contra o protecionismo elitista”, alinhando-se à agenda de progressividade tributária que Lula promove, como a taxação de super-ricos prevista para 2026.
Impactos econômicos e o tabuleiro eleitoralEconomicamente, o fim da taxa poderia injetar fôlego no comércio eletrônico transfronteiriço, beneficiando diretamente a China – que, apesar das tarifas de Trump, mantém superávit comercial com o Brasil de US$ 50 bilhões em 2024. No entanto, analistas como os da Vixtra fintech preveem um rombo fiscal de R$ 2 bilhões anuais, em um ano de projeções de inflação a 5,1% para 2025 e Selic em 15%, conforme o Copom. “Sem plano consistente, isso reforça a percepção de um governo reativo, mais focado em reeleição do que em desenvolvimento sustentável”, avalia Olenike.Politicamente, o timing é estratégico: com a campanha de 2026 se desenhando, Lula busca capitalizar o “efeito China” – parcerias em energia renovável e aviões sustentáveis assinadas em maio de 2025 totalizam R$ 27 bilhões em investimentos.
Mas o risco é alto: se o Centrão – que impôs a taxação original – barrar a revogação, o Planalto pode enfrentar uma derrota humilhante. Negociações com Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara, já estão em curso, ecoando o impasse de maio de 2024.Enquanto o debate ferve em Brasília, consumidores aguardam alívio no bolso. Resta saber se o “gesto” de Lula será aplaudido nas urnas ou visto como mais um capítulo de um governo em busca de redenção eleitoral. A Secom promete “avanços rápidos”, mas o Congresso, como sempre, será o fiel da balança.















