Montadoras Alertam Lula: Pacote Pró-China Pode Levar a Demissões em Massa no Brasil

A quatro dias da entrada em vigor do “tarifaço” de 50% imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre produtos brasileiros, as montadoras instaladas no Brasil elevaram o tom contra o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Em carta enviada ao presidente, ao ministro da Casa Civil, Rui Costa, e ao vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Geraldo Alckmin, as gigantes Volkswagen, Toyota, General Motors e Stellantis advertiram que um pacote de incentivos fiscais que favoreça montadoras chinesas, como a BYD, pode resultar na demissão de cerca de 5.000 funcionários diretos e impactar até 50.000 empregos indiretos na cadeia de fornecedores. A informação foi publicada pelo Poder360 em 28 de julho de 2025.

Contexto do Pacote Pró-ChinaO pacote em questão, que está em fase final de elaboração pelo governo Lula, prevê incentivos para a produção de veículos no sistema SKD (Semi Knocked Down), no qual carros são importados em kits e montados localmente com baixo índice de nacionalização. Esse modelo beneficia diretamente a chinesa BYD, que anunciou investimentos de R$ 5,5 bilhões em sua fábrica em Camaçari (BA) e planeja iniciar a produção de veículos elétricos e híbridos no Brasil. Outra montadora chinesa, a GAC, também confirmou investimentos de US$ 1,3 bilhão (cerca de R$ 7,39 bilhões) para produzir carros elétricos em Catalão (GO), conforme anunciado em maio de 2025 pelo Estadão.

As montadoras tradicionais, representadas pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), argumentam que o sistema SKD representa concorrência desleal, pois reduz custos trabalhistas e tributários em comparação com a produção local, que exige maior investimento em fábricas e empregos. Em carta enviada ao governo em junho de 2024, a Anfavea já havia alertado sobre a “entrada descontrolada” de carros chineses e solicitado a imposição de alíquotas máximas de imposto de importação e cotas para veículos elétricos, conforme reportado por O Globo.

Impacto Econômico e SocialO setor automotivo brasileiro emprega diretamente cerca de 120.000 trabalhadores e sustenta uma cadeia de fornecedores que multiplica esse impacto. Segundo a Anfavea, as demissões previstas pelas montadoras, caso o pacote pró-China seja implementado, poderiam atingir 5.000 funcionários diretos e até 50.000 indiretos, considerando a rede de fornecedores de peças. Esse cenário agravaria a crise econômica já enfrentada pelo Brasil, que lida com as tarifas americanas (50%) e venezuelanas (até 77%), que ameaçam reduzir o PIB em até 0,5% em 2025 e causar perdas de US$ 7 bilhões em exportações, conforme estimativas do banco BTG Pactual.O estado da Bahia, onde a BYD opera, é um ponto focal do debate. Embora o investimento chinês gere empregos locais, as montadoras tradicionais, como a Stellantis (dona da Fiat), que também tem fábrica em Betim (MG), alegam que a política de incentivos desequilibra a competição. “Estamos investindo bilhões no Brasil, mas não podemos competir com quem apenas monta kits importados sem gerar empregos significativos”, afirmou um executivo da Volkswagen em entrevista ao Poder360.

Conexão com a Guerra Comercial e Tensões InternacionaisA ameaça das montadoras ocorre em um momento de isolamento comercial do Brasil, intensificado pelas tarifas de Trump, que citam o “ativismo judicial” do STF, especialmente do ministro Alexandre de Moraes, como justificativa. A denúncia contra Moraes na OEA, protocolada em 25 de julho, e a lista de brasileiros sancionados pelo governo americano, que inclui o próprio Moraes, reforçam a pressão externa. A provocação de Celso Amorim, que comparou Trump à União Soviética em entrevista ao Financial Times em 27 de julho, também elevou as tensões, dificultando negociações para mitigar as tarifas.As montadoras temem que o pacote pró-China, aliado às tarifas americanas, desestimule investimentos no Brasil. A Volkswagen, por exemplo, anunciou planos de aumentar investimentos nos EUA para reduzir o impacto das tarifas de Trump, segundo a Folha de S.Paulo, enquanto no Brasil considera cortes de pessoal. A Anfavea também planeja abrir processos antidumping contra montadoras chinesas, como BYD e GWM, por práticas comerciais desleais, conforme noticiado pelo UOL em janeiro de 2025.

Resposta do Governo LulaAté o momento, o governo Lula não respondeu oficialmente à carta das montadoras. O presidente aposta na parceria com a China, principal destino das exportações brasileiras (US$ 47,7 bilhões em 2024), para contrabalançar as perdas com os EUA. A chegada de montadoras chinesas, como BYD e GAC, é vista como parte da estratégia de descarbonização e modernização do setor automotivo, alinhada ao programa Mover, que destinou R$ 19 bilhões em incentivos e exige metas de eficiência energética e reciclabilidade até 2030, segundo a Autoesporte.

No entanto, a pressão das montadoras tradicionais coloca Lula em uma encruzilhada. Enquanto a China oferece investimentos significativos, como os R$ 27 bilhões anunciados em 2025, a ameaça de demissões em massa pode minar a popularidade do governo, que já enfrenta críticas pela alta da inflação (estimada em 5,5% para 2025) e pela desvalorização do real. O vice-presidente Geraldo Alckmin, responsável pelo MDIC, tem se reunido com representantes da Anfavea para buscar um equilíbrio, mas fontes indicam que o governo está inclinado a manter os incentivos à BYD devido aos compromissos assumidos com Pequim.PerspectivasA ameaça de demissões reflete a guerra de lobby entre montadoras tradicionais e chinesas, que se intensificou com a reforma tributária e a chegada de players asiáticos ao Brasil. A Anfavea cobra coerência do governo, lembrando que o programa Mover foi desenhado para apoiar a indústria local, não importações facilitadas. Enquanto isso, a escalada da guerra comercial com os EUA e a Venezuela aumenta a urgência de diversificar mercados, mas o pacote pró-China pode custar caro em termos de empregos e apoio político interno.Se implementado, o pacote pode consolidar o Brasil como um polo de veículos elétricos, mas às custas de tensões com montadoras tradicionais e trabalhadores do setor. O governo Lula precisará negociar com cuidado para evitar uma crise social em meio a pressões externas crescentes.

Grok/X

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