© Rovena Rosa/Arquivo Agência Brasil
Por Redação Economia
28 de outubro de 2025O setor varejista brasileiro mergulhou em seu nível mais baixo de confiança desde os primeiros meses da pandemia de Covid-19, em 2020. O Índice de Confiança do Comércio (ICOM), calculado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), caiu para 72,4 pontos em outubro, o menor patamar desde abril de 2020 (68,9 pontos).
A marca fica bem abaixo da média histórica de 90 pontos e sinaliza um cenário de retração nas vendas de fim de ano, tradicionalmente o período mais aquecido para o setor.Queda generalizadaA pesquisa da FGV ouviu 1.200 empresas entre 1º e 25 de outubro e revelou deterioração em todos os subíndices. O Índice de Situação Atual (ISA-COM) recuou 3,2 pontos, para 78,1, refletindo estoques elevados e faturamento abaixo do esperado.
Já o Índice de Expectativas (IE-COM) despencou 5,8 pontos, para 67,2 – o menor desde maio de 2020. “Os empresários estão revendo para baixo as projeções de contratação e investimento. A combinação de juros altos, inflação persistente e desemprego em alta está sufocando a demanda”, resume Aloisio Campelo Jr., economista da FGV.
Juros e inflação pesamO Banco Central elevou a Selic para 12,25% ao ano em setembro, maior patamar desde 2017, para conter a inflação que acumula 5,8% em 12 meses até setembro – acima da meta de 3%. O crédito ao consumidor encolheu 2,1% no trimestre, segundo o BC, e as concessões de cartão de crédito caíram 4,3% na comparação anual.“Com o cheque especial a 320% ao ano e o rotativo do cartão a 440%, as famílias adiam compras de bens duráveis.
O varejo de eletrodomésticos já sente o impacto: as vendas caíram 12% em setembro, segundo o IBGE”, aponta Eduardo Yamashita, diretor da Gouvêa Ecosystem.Black Friday sob riscoA Confederação Nacional do Comércio (CNC) revisou sua projeção de crescimento real das vendas de fim de ano de 3,2% para 1,1%. “Se o pessimismo se confirmar, a Black Friday de 2025 pode ser a mais fraca desde 2020”, alerta Fabio Bentes, economista da entidade.
Pesquisa da CNDL/SPC Brasil mostra que 42% dos consumidores pretendem gastar menos do que no ano passado, contra 28% que planejam aumentar.Setores mais afetados
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Setor
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Variação das vendas (set/25 vs set/24)
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Estoques (dias de venda)
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Eletrodomésticos
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-12,4%
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48
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Móveis
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-9,8%
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52
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Vestuário
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-6,2%
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41
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Supermercados
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+1,1%
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22
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Fonte: IBGE/PMC e FecomercioSPVozes do setor
“Estamos cancelando pedidos de Natal. Sem crédito e com o consumidor endividado, não adianta encher a loja.”
— José Alberto Paiva, presidente da Alshop (lojas de shoppings)
“A cada alta de 1 ponto na Selic, perdemos R$ 2,5 bilhões em vendas no varejo restrito.”
— Luiza Helena Trajano, presidente do Magazine Luiza
PerspectivasAnalistas do Itaú BBA projetam que o ICOM só volte à zona de otimismo (acima de 100 pontos) no segundo semestre de 2026,
caso o BC inicie um ciclo de corte de juros em março. Até lá, o varejo deve operar com margens apertadas, demissões sazonais e fechamento de lojas – estimativa da FecomercioSP aponta 18 mil vagas a menos até dezembro.
O pessimismo atual não é apenas estatístico: é o reflexo de um consumidor que, pela primeira vez desde a pandemia, prioriza pagar contas em atraso em vez de presentear no Natal.















