Trump proibe Benedito Gonçalves, Ex-Ministro do TSE, de entrar nos EUA

Washington/Brasília, 22 de setembro de 2025
Em uma escalada contínua das tensões diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos, o governo de Donald Trump revogou o visto americano de Benedito Gonçalves, ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), conforme noticiado exclusivamente pela Reuters nesta segunda-feira (22).
A medida faz parte de uma série de sanções contra seis autoridades judiciais brasileiras, incluindo o advogado-geral da União, Jorge Messias, e é descrita por fontes da administração Trump como retaliação à “perseguição política” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Gonçalves, que atuou como ministro efetivo no TSE entre 2018 e 2022 – período que inclui a eleição presidencial de 2022 –, é o mais recente alvo de uma campanha que já atingiu o Supremo Tribunal Federal (STF) e aliados do ministro Alexandre de Moraes.
A decisão, confirmada por um alto funcionário do governo Trump à Reuters, estende as punições anunciadas em julho, quando os vistos de Moraes e outros sete ministros do STF foram suspensos. Na lista de revogações desta segunda-feira estão também: o ex-advogado-geral José Levi (ex-secretário-geral de Moraes no TSE); o juiz auxiliar Airton Vieira (do STF); o ex-assessor eleitoral Marco Antonio Martin Vargas; e Rafael Henrique Janela Tamai Rocha, outro assessor judicial de alto escalão.
Vários desses nomes são ex-ou atuais auxiliares de Moraes, relator do processo contra Bolsonaro, condenado em setembro pela Primeira Turma do STF por tentativa de golpe de Estado e outros crimes.O Departamento de Estado dos EUA justificou as ações sob a Seção 212(a)(3)(C) da Lei de Imigração e Nacionalidade, alegando que a entrada dessas autoridades “teria consequências adversas potencialmente graves para a política externa” americana. Marco Rubio, secretário de Estado, reforçou em postagens no X que as medidas visam combater uma “caça às bruxas” orquestrada por Moraes, que, segundo ele, viola direitos básicos e afeta cidadãos americanos, como no caso do bloqueio da plataforma X (ex-Twitter) no Brasil.
A Reuters destaca que as sanções não envolvem a Lei Magnitsky – usada contra a esposa de Moraes em agosto –, mas representam uma expansão das restrições de visto para “aliados” no Judiciário.Benedito Gonçalves, de 70 anos, foi indicado ao TSE pelo então presidente Michel Temer em 2018 e deixou o cargo em 2022, ao fim de seu mandato. Durante sua gestão, ele participou de julgamentos sensíveis, como a análise de abusos de poder na campanha de 2018 e a defesa da lisura das urnas eletrônicas em 2022 – narrativas que Bolsonaro contestou sem provas, levando à sua inelegibilidade pelo TSE em junho de 2023. Fontes próximas ao TSE, sob anonimato, descrevem Gonçalves como um jurista “imparcial e técnico”, e a revogação de seu visto como “uma interferência inaceitável em decisões soberanas de um tribunal eleitoral independente”.O governo brasileiro reagiu com veemência. Jorge Messias, principal alvo da sanção, confirmou a revogação em nota e criticou as ações como “unilaterais e incompatíveis com 200 anos de relações pacíficas entre Brasil e EUA”.
O Itamaraty emitiu comunicado condenando a medida como violação à soberania e prometendo “reciprocidade proporcional”, possivelmente revogando vistos de autoridades americanas. O presidente Lula, em Nova York para a Assembleia Geral da ONU, chamou as sanções de “inaceitáveis” em discurso improvisado, ligando-as à “agenda extremista” de Trump para proteger aliados como Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar desde agosto.Analistas internacionais veem a escalada como um teste à influência trumpista no Sul Global. Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da FGV, comentou à Reuters: “Isso não é só sobre Bolsonaro; é Trump usando o Departamento de Estado para exportar sua visão de ‘liberdade de expressão’ seletiva, punindo quem julga seus amigos políticos”.
No Congresso brasileiro, opositores como o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), radicado em Washington, celebraram a notícia no X como “justiça contra a ditadura judicial”. Já petistas, como Lindbergh Farias (PT-RJ), pedem cassação de Eduardo por “traição à soberania nacional”.A crise pode impactar laços econômicos: as tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, impostas em agosto, já custam bilhões ao agronegócio.
Com o recurso de Bolsonaro ao plenário do STF previsto para outubro, as sanções sinalizam que Trump planeja mais pressão, incluindo possíveis sanções financeiras via Magnitsky. Gonçalves, contatado pela reportagem, não se pronunciou, mas aliados indicam que ele recorrerá à Justiça americana.
Em um mundo polarizado, o caso expõe como disputas judiciais internas se transformam em batalhas geopolíticas, com o Brasil no centro de uma vingança transnacional.

Mostrar mais artigos relacionados
Mostrar mais em Política
.