Firas Makdesi
O Irã enfrenta, em janeiro de 2026, uma das maiores ondas de protestos antigovernamentais desde a Revolução Islâmica de 1979, com manifestações que já duram mais de duas semanas e se espalham por praticamente todas as 31 províncias do país.
Origem e Motivações dos ProtestosOs atos começaram no final de dezembro de 2025, inicialmente impulsionados por comerciantes do Grande Bazar de Teerã, que fecharam suas lojas em protesto contra a hiperinflação, a desvalorização catastrófica do rial (que chegou a superar 1,4 milhão por dólar no mercado livre) e o colapso econômico agravado por sanções internacionais e os impactos da “Guerra de 12 Dias” com Israel e EUA em junho de 2025.
Rapidamente, as demandas econômicas evoluíram para críticas diretas ao regime teocrático do aiatolá Ali Khamenei, ao sistema político e à corrupção. Estudantes, trabalhadores e comerciantes se uniram, com ecos de movimentos anteriores como o “Mulher, Vida, Liberdade” de 2022. O príncipe exilado Reza Pahlavi, herdeiro do último xá, incentivou as manifestações, o que ampliou o alcance.
Escala e ViolênciaAs manifestações atingiram cidades como Teerã, Isfahan, Shiraz, Mashhad, Kermanshah e Zahedan. Relatos incluem incêndios em veículos oficiais, queima de bandeiras e imagens de Khamenei, e confrontos diretos com forças de segurança.Organizações de direitos humanos reportam números alarmantes:
- Pelo menos 200 a 500 manifestantes mortos (variações entre Iran Human Rights, HRANA e outras fontes; algumas estimativas chegam a mais de 500).
- Dezenas de crianças entre as vítimas.
- Mais de 2.600 a 10.000 prisões, incluindo menores.
- Cerca de 100 a 114 agentes de segurança (policiais, Basij e Guarda Revolucionária) mortos, o maior número em qualquer onda de protestos recente.
O regime respondeu com repressão intensa: uso de força letal, gás lacrimogêneo, prisões em massa e, desde 8 de janeiro, um apagão nacional de internet e comunicações, reduzindo a conectividade a cerca de 1% do normal — tática recorrente para impedir organização e divulgação de vídeos.Posição do Governo Iraniano
O presidente Masoud Pezeshkian prometeu diálogo e medidas econômicas (como subsídios e reajustes salariais), mas acusou “mercenários dos EUA e Israel” de fomentarem o caos.
O líder supremo Khamenei classificou os manifestantes como “vândalos” e “mercenários estrangeiros”, prometendo não ceder.
A Guarda Revolucionária (IRGC) e o Exército enquadram os protestos como “extensão da guerra de 12 dias” e “terrorismo urbano”, justificando repressão militarizada.O porta-voz do Parlamento, Mohammad Bagher Qalibaf, ameaçou retaliar bases americanas e Israel em caso de ataque externo.Reações Internacionais
O presidente dos EUA, Donald Trump, declarou apoio aos manifestantes, afirmando que os EUA estão “prontos para ajudar” e considerando opções como sanções adicionais, fornecimento de internet via satélite (Starlink) ou até ações militares. Encontros na Casa Branca discutem respostas, mas sem decisão final anunciada.Israel mantém alerta elevado, com Netanyahu reiterando que não permitirá reconstrução do programa nuclear ou de mísseis iranianos.
A comunidade internacional, incluindo França e ONU, critica a repressão e pede moderação.Contexto MaiorOs protestos ocorrem após a “Guerra de 12 Dias” de junho de 2025, que danificou instalações nucleares iranianas e enfraqueceu proxies como Hezbollah e Houthis. A economia sofre com sanções reativadas, inflação galopante e isolamento.
Analistas veem risco de escalada: o regime pode intensificar a repressão, mas uma intervenção externa (EUA/Israel) poderia unir iranianos contra “agressão estrangeira”.A situação permanece volátil, com o blackout dificultando informações em tempo real. O desfecho pode definir o futuro da República Islâmica.















