Bispo de Goiás pede intercessão de Nossa Senhora para livrar o Brasil do “comunismo” em vigília católica

Brasília, 01 de setembro de 2025
Durante uma vigília católica realizada no evento “Desperta Brasil”, em Brasília, o bispo de Anápolis (GO), Dom Eugênio Rixen, invocou a proteção de Nossa Senhora Aparecida para “livrar o Brasil da guerra, da fome e do comunismo”.
O vídeo da bênção, gravado no sábado (30 de agosto), viralizou nas redes sociais e gerou polarização imediata, com apoiadores elogiando a “coragem espiritual” e críticos acusando o religioso de misturar fé e ideologia política em um momento de tensão no país. O pronunciamento ocorre a poucas horas do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no Supremo Tribunal Federal (STF), alimentando debates sobre o papel da Igreja em meio à polarização entre governo Lula e a oposição conservadora.O evento “Desperta Brasil”, organizado por movimentos católicos conservadores, reuniu milhares de fiéis na capital federal para orações e reflexões sobre temas como família, pátria e valores cristãos. Ao lado do frei Gilson, conhecido por suas pregações evangélicas, Dom Eugênio liderou a oração, afirmando: “Ó Virgem Maria, livra-nos da guerra, da fome e do comunismo”.
A declaração, capturada em vídeo de cerca de 30 segundos, foi compartilhada inicialmente por perfis bolsonaristas e rapidamente se espalhou por portais de notícias, acumulando milhões de visualizações no X (antigo Twitter).
O bispo, nomeado em 2021 pelo papa Francisco, é conhecido por posições alinhadas à ala mais tradicional da Igreja Católica no Brasil, mas o episódio reacende discussões sobre a neutralidade religiosa em contextos políticos.Contexto do evento e o discurso do bispoA vigília fazia parte de uma série de atividades preparatórias para o feriado de 7 de setembro, Dia da Independência, que inclui manifestações convocadas por deputados como Nikolas Ferreira (PL-MG).
Dom Eugênio Rixen, bispo auxiliar da Arquidiocese de Goiânia desde 2018 e titular de Anápolis desde o ano passado, enfatizou em sua oração a necessidade de proteção divina contra “ameaças ao povo brasileiro”. O “comunismo” mencionado é interpretado por analistas como uma referência velada ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), acusado por setores da direita de implementar políticas “esquerdistas” que ameaçam a liberdade religiosa e econômica. O frei Gilson, que compartilhou o palco, é um pregador popular entre evangélicos conservadores e já se posicionou contra o que chama de “ideologia de gênero” e “marxismo cultural”.
A Igreja Católica no Brasil, historicamente dividida entre alas progressistas (ligadas à Teologia da Libertação) e conservadoras, vê nesse episódio um sinal de fortalecimento do conservadorismo eclesiástico.
O papa Francisco, em visitas anteriores ao país, defendeu a separação entre Igreja e Estado, mas não comentou o caso até o momento. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) emitiu nota neutra, reafirmando o compromisso com a paz social, sem endossar ou criticar a fala específica de Dom Eugênio.Reações polarizadas nas redes e na mídiaO vídeo explodiu nas redes sociais, com hashtags como #LivraNosDoComunismo e #FeContraEsquerda ganhando tração entre bolsonaristas. Perfis como

@choquei

e

@boletimbr

compartilharam o conteúdo, chamando-o de “oração profética”, enquanto o portal O Globo destacou a presença do frei Gilson ao lado do bispo. No X, o post do

@JornalOGlobo

acumulou mais de 300 curtidas e dezenas de comentários, com usuários divididos: “Deus abençoe o bispo corajoso!” versus “Igreja virando palanque político? Vergonha!”.

Críticos, como o comunicador Jonas Di Andrade (

@jonasdiandrade

), ironizaram: “São estes tipos de discursos que precisamos desconstruir”, apontando para a desconexão entre fé e realidade social.

Do lado esquerdo, petistas e ativistas acusam o bispo de “fundamentalismo”, com comentários como o de Ellen Rebeca (

@EllenRe36043990

): “E eu orando pra Igreja livrar as crianças dos padres pedófilos”.

A UOL e o Terra cobriram o fato como “bênção polêmica”, enfatizando o risco de instrumentalização religiosa em um país onde 64% da população é católica, segundo o IBGE.

No exterior, o episódio foi noticiado por veículos como o Financial Times, ligando-o às tensões diplomáticas com os EUA, onde Donald Trump apoia Bolsonaro e critica o “comunismo” no Brasil.

Especialistas em religião, como o teólogo Leonardo Boff, veem a fala como “eco do anticomunismo da Guerra Fria”, adaptado ao contexto atual de polarização.
Já o sociólogo da USP, Ronaldo Almeida, alerta para o potencial de mobilização: “Em ano de manifestações como o 7 de Setembro, isso pode unir evangélicos e católicos conservadores contra o governo”.
Implicações políticas e eclesiásticasO pronunciamento chega em um momento crítico: com o julgamento de Bolsonaro iniciando amanhã (2 de setembro), sanções americanas em vigor e alertas de seca pelo Inmet, o Brasil vive um clima de instabilidade.
A menção ao “comunismo” pode ser vista como endosso indireto à oposição, especialmente após a ordem do Exército proibindo aglomerações perto de quartéis. A CNBB, pressionada, pode convocar uma reunião para discutir o uso de púlpitos em eleições futuras, mas fontes internas indicam relutância em punir o bispo, priorizando a unidade.Dom Eugênio não se pronunciou publicamente desde o evento, mas aliados defendem que a oração foi “espiritual, não política”. Enquanto isso, o vídeo continua a circular, inspirando petições online por “mais bispos como ele” e contrapropostas de orações pela “justiça social”.
Analistas preveem que o episódio influencie as manifestações de 7 de setembro, convocadas por Nikolas Ferreira, potencializando o embate entre fé e política.

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