PF Acusa Agências da Caixa e do Santander de Receberem R$ 331 Milhões em Depósitos de Dinheiro Vivo Ligados ao Crime Organizado

Curitiba, 8 de setembro de 2025 
A Polícia Federal (PF) divulgou, em relatório da Operação Tank, que agências da Caixa Econômica Federal e do Santander foram utilizadas para movimentar R$ 331 milhões em depósitos em espécie oriundos de uma organização criminosa que dominou parte do setor de combustíveis no Brasil.
Os valores, depositados em 9.560 transações sem identificação dos depositantes, teriam sido usados para lavagem de dinheiro, violando normas antilavagem estabelecidas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
A operação, deflagrada em agosto de 2025, investiga ligações com o Primeiro Comando da Capital (PCC) e resultou na prisão de suspeitos, incluindo Rafael Belon, sócio majoritário da fintech Tycoon Technology, por onde os recursos passaram.
O Esquema Revelado pela PFDe acordo com o delegado Mateus Marins Corrêa de Sá, do Grupo de Investigações Sensíveis (Gise) da PF no Paraná, os depósitos foram feitos entre 2020 e 2022, com a maior parte (96,76%) em dinheiro vivo, sem cumprir a obrigatoriedade de identificação para operações acima de R$ 30 mil. O relatório, encaminhado à 13ª Vara Federal de Curitiba, destaca que os bancos registraram as transações em nome da Tycoon, mas falharam em identificar os clientes reais, facilitando a ocultação da origem ilícita dos fundos.
  • Na Caixa Econômica Federal: A Tycoon mantinha duas contas em uma agência em Guarulhos (SP), onde foram realizados 1.336 depósitos totalizando R$ 164,9 milhões. Nenhum depositante foi identificado inicialmente, apesar de 910 comunicações suspeitas enviadas ao Coaf.
  • A PF enviou oito e-mails ao banco desde junho de 2024 solicitando dados, mas só obteve respostas parciais em dezembro, identificando Rafael Belon apenas para depósitos acima de R$ 50 mil. Os recursos foram transferidos principalmente para o BK Bank (R$ 126,7 milhões) e empresas ligadas a Mohamad Hussein Mourad, conhecido como “Primo” (R$ 30,2 milhões no total). O delegado conclui que a conta na Caixa foi “constituída com a exclusiva finalidade de receber vultosos recursos em espécie de terceiros”.

 

  • No Santander: Uma conta em agência no Bom Retiro (Curitiba/PR) registrou R$ 91,2 milhões em créditos, com 90,8% via Ordens de Crédito por Teleprocessamento (OCT), totalizando 8.224 transações. O banco informou que esses créditos decorreram de “coleta de valores”, mas não incluiu análise de risco em 878 das 879 comunicações ao Coaf. Os depósitos, em média R$ 34 mil cada, foram usados para intermediar transferências para a distribuidora de combustíveis Duvale, controlada por suspeitos do esquema.

A PF estima que o esquema movimentou pelo menos R$ 1,24 bilhão em transações atípicas, com a Tycoon atuando como “instituição de pagamento” para recolher dinheiro vivo de postos de gasolina controlados pela organização criminosa. Belon, preso em 28 de agosto, é acusado de associação ao tráfico e lavagem de dinheiro. O PCC, maior facção de São Paulo, é apontado como financiador, usando o setor de combustíveis para lavar lucros do narcotráfico.Respostas dos Bancos e das Autoridades

Os bancos negaram irregularidades e enfatizaram conformidade com a lei:

  • Santander: “Mantém sistemas robustos de controle e reitera seu compromisso com a legalidade e a legislação de Prevenção à Lavagem de Dinheiro. Está legalmente impedido de comentar casos específicos.”
  • Caixa Econômica Federal: “Atua conjuntamente com órgãos de segurança pública nas investigações. Dedica atenção especial ao monitoramento de movimentações suspeitas, com comunicação ao Coaf. As informações são sigilosas e repassadas exclusivamente à PF.”

O Ministério Público Federal (MPF) e a Justiça Federal de Curitiba avaliam o relatório para possíveis ações contra as instituições, incluindo multas por falhas em compliance.

A operação Tank, iniciada em 2024, já desarticulou redes de fraude no Paraná e São Paulo, com foco em fintechs como Tycoon e BK Bank, acusadas de operar “contas-bolsão” para ocultar origens.Impactos e Contexto MaiorEssa revelação expõe vulnerabilidades no sistema financeiro brasileiro, especialmente em agências de grande porte, e reforça a luta contra a infiltração do crime organizado no setor de combustíveis – um dos mais lucrativos para lavagem de dinheiro, com fraudes estimadas em bilhões anualmente.
A PF destaca que, apesar das comunicações ao Coaf, a falta de identificação permitiu o fluxo contínuo de recursos ilícitos, prejudicando a fiscalização.Analistas apontam que o caso pode resultar em reformas regulatórias pelo Banco Central, ampliando exigências de rastreabilidade. Até o momento, não há indícios de envolvimento direto de funcionários dos bancos, mas a demora na resposta da Caixa à PF levanta questionamentos sobre eficiência interna.A investigação prossegue, com buscas por ramificações em outros estados e possíveis ligações internacionais. Para mais detalhes, acompanhe atualizações da PF e do MPF.
Fonte com base em relatórios da PF e coberturas jornalísticas

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