Veículos elétricos parecem mais resilientes enquanto setor automotivo tem retração estimada em 23% em decorrência da crise econômica e de saúde

Londres e Nova York, 19 de maio de 2020 – As vendas de veículos elétricos de passageiros devem cair 18% em 2020 e chegar a 1,7 milhões de unidades ao redor do mundo – com a crise causada pelo coronavírus interrompendo dez anos sucessivos de forte crescimento. Contudo, as vendas de carros com motor a combustão devem despencar ainda mais este ano (23%), enquanto a eletrificação do transporte a longo prazo mantém perspectiva de aceleração nos próximos anos.

A mais recente edição anual do Long-Term Electric Vehicle Outlook, publicada hoje pela empresa de pesquisa BloombergNEF (BNEF), aponta que os modelos elétricos devem responder por 58% das vendas mundiais de novos veículos de passageiro até 2040 e por 31% da frota total de carros. Estes modelos também representarão 67% de todos os ônibus em circulação até lá, e ainda 47% dos veículos de duas rodas[1] e 24% dos veículos comerciais leves.

Os números têm forte impacto nos setores elétrico e de petróleo. A eletrificação do transporte, em particular aquela representada pelos veículos de duas rodas, hoje já reduz a demanda por petróleo em 1 milhão de barris/dia e esta redução deve chegar a 17,6 milhões de barris até 2040. Os veículos elétricos (VEs) de todos os tipos devem aumentar a demanda mundial por eletricidade em 5,2% até 2040.

Colin McKerracher, analista-chefe de transporte avançado da BNEF, disse: “A pandemia da Covid-19 causará uma redução significativa nas vendas mundiais de automóveis em 2020 e tem levantado questões dificílimas sobre as prioridades dos fabricantes e sua capacidade de financiar a transição. Não há mudança de curso, mas a estrada será tortuosa para o setor pelos próximos três anos.

A análise da BNEF sugere que as vendas mundiais de motores a combustão interna, ou MCIs, alcançaram seu pico em 2017 e deverão manter seu declínio no longo prazo, após uma recuperação temporária pós-crise. Pela primeira vez, a BNEF vê as vendas gerais de novos veículos de passageiro alcançando seu pico em 2036, à medida que mudanças na demografia mundial, o aumento da urbanização e uma maior mobilidade compartilhada superarem os efeitos do desenvolvimento econômico –  embora o tamanho da frota continue aumentando. Há expectativa de que os modelos elétricos respondam por 3% das vendas globais de veículos em 2020 e cheguem a 7% em 2023, o equivalente a 5,4 milhões de unidades.

De modo geral, quedas subsequentes nos preços das baterias de íons lítio farão com que a vida útil e o custo inicial de um carro elétrico ‘cruzem’ com aqueles dos modelos tipo MCI mais ou menos em 2025. Contudo, esta data poderá variar consideravelmente dependendo do mercado, podendo ser já em 2022 para carros maiores na Europa, mas 2030 ou mais para carros pequenos na Índia e no Japão.

O relatório deste ano inova ao examinar as perspectivas de crescimento dos veículos elétricos de duas rodas e daqueles movidos a célula de combustível, que usam hidrogênio. Na sua perspectiva, esta última tecnologia responderá por 3,9% das vendas mundiais de veículos comerciais pesados e 6,5% das vendas globais de ônibus municipais até 2040, mas com fatias maiores no leste da Ásia e em partes da Europa. As células de combustível não devem abocanhar uma fatia muito grande dos mercados de veículos comerciais leves e de carros de passageiros.

O relatório mostra que os veículos completamente autônomos, ou “robotáxis”, começarão a ter um papel mais proeminente no final da década de 2030, devido à aplicação crescente de sistemas avançados de condução assistida (ADAS), e ao completo amadurecimento das cadeias de suprimento de sensores.

Aleksandra O’Donovan, analista-chefe de transporte eletrificado na BNEF, disse: “Desta vez, examinamos a infraestrutura de recarga para veículos elétricos como jamais havíamos feito antes. Estimamos que o mundo precisará de aproximadamente 290 milhões de pontos de recarga até 2040, incluindo 12 milhões em locais públicos, o que significa investimentos acumulados de 500 milhões de dólares.

As estimativas da BNEF apontam que os pontos de recarga  para residências, escritórios e comércios privados responderão por 78% deste investimento. O investimento na infraestrutura pública de recarga deve chegar a 111 bilhões de dólares em 2040,  no acumulado de todos os países. A maior parte deste aporte poderá vir do setor privado, atraído pela perspectiva de lucros à medida que as taxas de utilização aumentarem ao longo da década de 2020, mas o apoio governamental poderá ser necessário em algumas regiões.

Há mais de 7 milhões de VEs de passageiros rodando atualmente, além dos mais de 500.000 ônibus, quase 400.000 furgões e caminhões elétricos de entrega, e 184 milhões de ciclomotores, scooters e motocicletas em circulação mundo afora. A maioria dos ônibus elétricos e dos veículos de duas rodas hoje em circulação se encontra na China.

O relatório discute ainda o impacto da crise do coronavírus na circulação pública e mostra que não haverá apenas efeitos de curto prazo, à medida que os lockdowns são suspensos ou relaxados. Ao contrário, provavelmente haverá uma redução permanente na utilização de ônibus municipais e do metrô, e mais congestionamento no trânsito das cidades. As operadoras de mobilidade compartilhada têm sofrido, mas se recuperarão rapidamente devido à maior demanda por entrega de alimentos, logística e serviços de micromobilidade urbana.

Por Bloomberg

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