Ministério do Ambiente de Luanda diz que fogos registrados em Angola resultam de queimadas de capim e produção de carvão vegetal. Podem não ser boas práticas mas são habituais e controláveis, sem comparação com a Amazônia.

São as queimadas de preparação das terras para a agricultura e a produção de carvão vegetal em fornos que levam o MODIS, o instrumento científico da NASA que via satélite registra, entre outros, os fogos florestais, a indicar que atualmente Angola tenha, aparentemente, um número elevado de fogos, superior ao Brasil. Na realidade, diz o Ministério do Ambiente angolano em comunicado, correspondem a ações humanas controladas, ainda que nem sempre sejam as práticas mais desejáveis. Mas qualquer comparação com o que está a acontecer na Amazônia, com incêndios por controlar, é errada. “A situação das queimadas no nosso país está longe de assumir proporções incontroláveis, como se tentou induzir”, garante a nota emitida esta segunda-feira pelo Ministério do Ambiente, tutelado por Paula Francisco Coelho.

Aponta o governo angolano que as ocorrências registradas pelo MODIS, “se utilizadas apenas como estatísticas (número de casos), podem levar a uma dramatização da situação, e desinformar os mais incautos, pois as informações que ele fornece carecem sempre de validação in situ, a fim de aferir que ocorrências devem ser consideradas e quais descartar em função da sua magnitude.”

“Acontece que nesta época do ano em várias regiões do nosso país estão a acontecer queimadas que as populações camponesas empregam na fase de preparação das terras para cultivo, dado o aproximar da estação das chuvas, prática que, apesar de não ser a mais aconselhável, é usual, secular. Por outro lado, existe uma significativa produção vegetal em quase todas as províncias“, apontam os responsáveis angolanos.

Com isto, diz o Ministério do Ambiente, o MODIS pode registrar a ocorrência de “vários pequenos fogos”, além de que “registrará todos os dias que um forno estiver a trabalhar como sendo diferentes e sucessivas queimadas”.

Desta forma, os responsáveis angolanos procuram deixar espelhadas as diferenças para os fogos que estão a ocorrer na Amazônia e que motivaram comentários de comparação com o que se passa em África e em particular em Angola. O ministro do Ambiente do Brasil, Ricardo Salles, foi um dos responsáveis políticos do governo de Jair Bolsonaro que, nas redes sociais, tentou minimizar a situação no país sul-americano por comparação com os africanos. Também uma notícia veiculada pelo agência Bloomberg, dando nota do número de fogos em Angola na República Democrática do Congo, de acordo com as estatísticas do MODIS superiores aos registrados no Brasil.

No domingo, João de Melo, ministro da Comunicação Social de Angola, já tinha recorrido do Twitter para criticar a comparação. “O artigo atribuído à Bloomberg afirmando, com base em fotos da NASA, que há mais fogos em Angola, Congo e outros países do centro-sul de África do que na Amazônia é um completo nonsense. Como comparar queimadas, tradicionais nesta região, com o incêndio da maior floresta do mundo?”, escreveu João Melo.

“Confundir fotos de capim a arder na nossa região com incêndios massivos em florestas é brincadeira. E misturar isso com politiquice barata é pior ainda. Lamentável”, acrescentou o governante.

No entanto, tanto João de Melo como o Ministério do Ambiente de Angola reconhecem que o problema existe e precisa de ser resolvido. Na nota hoje divulgada, o governo de Luanda refere que “tal como em muitos países da África subsaariana, há uma elevada perda de florestas nativas no nosso país, resultante de fogos descontrolados, com origem diversas, principalmente a caça, por deficiência da consciência ambiental e debilidades do sistema de fiscalização.”

Por isso, o Ministério do Ambiente admite que é necessário “intervir com eficácia na prevenção de queimadas”, apesar de negar que o cenário atual seja alarmante ou comparável ao Brasil.

Adaptado de: Diário de Notícias

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